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Opuspac University

Victor Basso entre os 100 mais influentes da área da saúde

No dia 02 de dezembro, o CEO da Opuspac, Victor Basso, recebeu o prêmio dos 100 mais influentes da saúde, do Grupo Mídia, na categoria Empresário. A seguir, a matéria, publicada na revista Health Management, edição 101.

Ao longo de quase duas décadas à frente da Opuspac, Victor Eduardo Basso consolidou uma trajetória marcada pela inovação e pela busca contínua por eficiência na automação e logística hospitalar.

Engenheiro e especialista em Qualidade e Segurança do Paciente, ele lidera a maior empresa de automação hospitalar da América Latina, com presença em 29 países e soluções implementadas em mais de 1.100 hospitais.

Nos últimos anos, tem direcionado esforços para expandir fronteiras e aprimorar modelos de negócio. A Opuspac cresce nos mercados interno e externo, e um dos destaques desse crescimento é o lançamento da linha CORINA de máquinas robóticas, desenvolvida com inspiração no mercado japonês, que aumenta a produtividade, com maior eficiência em relação às versões anteriores e com preço reduzido, consolidando a Opuspac como referência global em automação hospitalar.

A atuação internacional rendeu à empresa o Prêmio APEX Brasil Empresa de Exportação, concedido pelo Governo Federal, e reforçou a estratégia de Victor Basso em manter uma “conexão fluída com o mercado”, como ele define — sempre pautada em agregar valor com seriedade e foco no cliente. Esse princípio norteia também sua visão de liderança: em um cenário em que a inteligência artificial ocupa o centro das discussões, ele alerta para a necessidade de equilibrar inovação com fundamentos sólidos de gestão e sustentabilidade financeira.

Em seu último livro, publicado em 2025, escreveu sobre Healthcare Mindset, abordando o crescimento exponencial da complexidade no setor. “Estamos diante de um aumento expressivo no nível de investimento requerido, e muitas instituições estão apenas sobrevivendo. Isso tende a gerar uma lacuna entre grupos de ponta e os demais, em termos de qualidade dos serviços”, analisa.

Para ele, o futuro do setor passará necessariamente pela eficiência, impulsionada por ferramentas como RPA, inteligência artificial, cultura Lean Healthcare e novos modelos empresariais. Essa visão se reflete também em sua atuação na Opuspac University, iniciativa educacional aberta e gratuita, que já produziu mais de 100 artigos técnicos, 120 vídeos, 12 livros, 4 cursos EAD e conta com mais de 7.000 inscritos. Possui parcerias educacionais consolidadas com SENAC-SP, SINDHOSP-SP, CBEXS, ABECLIN, FMC – Faculdade de Medicina de Campos (RJ) e a Escola de Engenharia Clínica.

“Somos engenheiros e adotamos sempre um enfoque técnico e rigoroso”, resume Victor Basso. “Nosso propósito é contribuir com conhecimento e oferecer um olhar empresarial ao setor de saúde, aprendendo constantemente com as experiências do Brasil e dos países onde atuamos. Nossa missão é agregar valor ao setor onde atuamos, e a Opuspac University é a demonstração disso.”

O que seu plano estratégico diz para os próximos 5 anos?

O futuro e as recentes tecnologias estão mais perto do que pensamos. Elas trarão conveniência e avanços, mas teremos Capex para acompanhá-las? De quanto dinheiro estamos falando? Quais são os setores com melhor RoI?  Qual deve ser nosso primeiro passo?

Quais são as dores do setor?  Não tem sido fácil conseguir pessoal qualificado e temos profissionais com burnout. A automatização de processos, com ou sem IA, e a digitalização são tarefas cada vez mais importantes e não possuímos uma estratégia abrangente para isso. Temos muitos desperdícios em vários processos. As melhorias na qualidade e na segurança do paciente ainda não estão ganhando velocidade. O Lean Healthcare ainda é uma ideia que não decolou. Os processos judiciais, as glosas e o envelhecimento da população aumentam nossos gastos, sem contrapartida. Além disso agora temos um verdadeiro tsunami de mudanças tecnológicas, que exigirão investimentos elevados — e que, no momento, não estão disponíveis.

Diante de tamanho desafio, necessitamos de um plano e uma estratégia bem definida.

Naturalmente, em um cenário como esse, é comum sentirmo-nos sobrecarregados — o que contribui ainda mais para o burnout. As principais causas são o aumento da complexidade, a escassez de recursos e a ausência de um mindset mais adaptativo e aberto à inovação.

Em meu último livro— Healthcare Mindset para tempos exponenciais (200 páginas) — proponho uma gama de soluções, desde novos modelos de negócios, até uma mudança para uma cultura mais transparente, horizontal e aberta ao novo. Você pode baixar o livro gratuitamente em nossa plataforma Opuspac University (opuspac.university.com), nossa colaboração com o setor da saúde, onde todos os materiais são disponibilizados gratuitamente, pois nosso negócio é Automação Hospitalar.

A partir daqui, vamos focar em uma categoria específica: hospitais com aproximadamente 50 leitos, que atendem tanto ao SUS quanto a clientes pagantes. Ficam fora deste escopo os hospitais de alto padrão que não operam com o SUS, bem como os 100% públicos ou diretamente administrados por governos.

Nesse contexto, você já estimou o investimento necessário para os próximos 5 anos, considerando a chegada das novas tecnologias?

Você já sabe como obter esses recursos ou possui um plano estratégico para isso?

O valor total, neste caso, pode oscilar entre 24 e 46 milhões de reais, assim distribuídos, de maneira aproximada, de 10% a 25%:

  • Infraestrutura Digital
  • Automação, RPA e IA
  • Treinamentos
  • Ferramentas para melhorar as decisões analíticas, CDSS
  • Telemedicina e controle à distância
  • Infraestrutura e IoT

Não é essencial que estes números coincidam exatamente com os seus. O importante é que você tenha suas próprias estimativas e um plano para viabilizá-las.

Ou seja, para enfrentar os cenários que se aproximam, serão necessários: A) pessoal qualificado — técnico, clínico e de gestão; B) uma nova cultura (ou mindset) mais aberta à inovação e à assimilação do novo; e C) investimentos disponíveis.

Enquanto formamos um grupo de líderes inovadores, será necessário viabilizar o Capex. Aplicar as técnicas de Lean Healthcare para reduzir desperdícios é o caminho mais fácil. Embora não seja a principal fonte de recursos, a medida mais imediata pode ser a redução do estoque, que normalmente varia de 45 para 20 dias. Essa medida pode gerar uma liberação de capital de aproximadamente 4 milhões de reais.

Reduzir o desperdício pode disponibilizar aproximadamente 8 milhões por ano, ou o total de 40 milhões em 5 anos, algo muito próximo ao valor necessário para este investimento. O valor estimado de desperdício é de 30%, onde, em nossos cálculos, incluímos todas as atividades que não agregam valor ao cliente, seja este o paciente ou o processo seguinte.

Não é menos importante o custo da falta de qualidade e dos erros que causam danos aos pacientes — segundo a OMS, esses eventos representam até 15% dos gastos hospitalares (fonte: https://www.oecd.org/en/publications/the-economics-of-patient-safety_761f2da8-en.html).

Para aprofundar-se nesse tema, recomendamos as obras Cultura Lean Healthcare (redução de desperdícios), Healthcare Mindset para Tempos Exponenciais e Segurança do Paciente, todas de autoria do mesmo autor e disponíveis gratuitamente em opuspac-university.com.

Conclusão

Considerando que, nos próximos cinco anos, os hospitais brasileiros precisarão investir milhões de reais em infraestrutura digital, automação, capacitação, CDSS, telemedicina e IoT, fica evidente que a infraestrutura continuará sendo fundamental para garantir sistemas seguros e integrados. E a automação, por sua vez, desempenhará papel crucial na ampliação da eficiência operacional. É fundamental considerar a redução de desperdícios como um elemento indispensável para o êxito de todo esse processo.

Diante desse cenário, é imprescindível que o gestor forme sua tribo, abandone o conservadorismo, adotando uma cultura sólida de inovação e qualidade. E o investimento surgirá!

Fontes

Adoção do Growth Mindset em Equipes de Projetos de Engenharia: Impacto na Resolução de Problemas e Inovação

Resumo

Este artigo investiga o impacto da adoção do Growth Mindset em equipes de projetos de engenharia, com foco na resolução de problemas e na promoção da inovação. O objetivo é compreender como essa mentalidade pode ser incorporada às práticas organizacionais e quais benefícios ela oferece em ambientes técnicos complexos. A pesquisa é de natureza teórica, fundamentada em revisão bibliográfica, e integra conceitos da Psicologia Cognitiva, da Engenharia de Produção e da Gestão de Projetos. A partir de autores como Dweck (2006), Senge (1990), Kerzner (2017) e PMI (2021), analisam-se os efeitos dessa mentalidade sobre a superação de falhas, a criatividade e a aprendizagem contínua. Os resultados indicam que o Growth Mindset contribui para o fortalecimento da cultura organizacional, o aumento do engajamento das equipes e a melhoria da eficácia dos projetos, configurando-se como uma estratégia relevante para os desafios da Indústria 4.0.

Palavras-chave: Growth Mindset; Engenharia de Produção; Gestão de Projetos; Aprendizado Contínuo; Inovação.

1. Introdução

Projetos de engenharia são caracterizados por alta complexidade técnica, prazos rigorosos e constante necessidade de inovação. Nesse contexto desafiador, o desempenho das equipes é um fator determinante para a eficácia das entregas e para a superação de imprevistos. Embora as competências técnicas sejam essenciais, aspectos comportamentais como resiliência, abertura ao feedback e disposição para aprender vêm ganhando espaço como fatores críticos de sucesso (Kerzner, 2017; PMI, 2021).

Dentre as abordagens que contribuem para o desenvolvimento dessas competências, destaca-se o conceito de Growth Mindset, ou mentalidade de crescimento, proposto por Carol Dweck (2006). Essa teoria parte da premissa de que habilidades podem ser desenvolvidas por meio do esforço, da persistência e do aprendizado. Em contraponto à mentalidade fixa — que considera talentos como inatos e imutáveis — o Growth Mindset estimula a superação de desafios, a adaptação em ambientes incertos e a valorização do aprendizado contínuo (Dweck, 2006; Heslin; Latham; Vandewalle, 2005).

Ainda que originalmente aplicado à psicologia educacional, o conceito vem sendo amplamente estudado no ambiente organizacional, especialmente por seu potencial de transformar comportamentos em contextos de alta exigência, como os vivenciados em projetos de engenharia (Caniëls; Semeijn; Renders, 2018). Nesse cenário, torna-se relevante investigar como a adoção do Growth Mindset pode influenciar as dinâmicas de equipe, a resolução de problemas e a capacidade de inovação.

A pesquisa se justifica pela crescente demanda por práticas de gestão que combinem competências técnicas com habilidades socioemocionais, alinhadas às exigências da Indústria 4.0. A literatura ainda apresenta lacunas quanto à aplicação prática do Growth Mindset em equipes técnicas, especialmente em engenharia de produção, onde as decisões precisam ser tomadas com rapidez, precisão e adaptabilidade.

Diante disso, o objetivo geral deste artigo é analisar os impactos da adoção do Growth Mindset em equipes de projetos de engenharia, com foco na resolução de problemas  e  na  promoção  da  inovação.  Busca-se  compreender  como  essa mentalidade pode ser incorporada às práticas organizacionais e quais são suas possíveis contribuições para o desempenho das equipes em ambientes complexos. A principal contribuição deste estudo é oferecer uma perspectiva teórica que conecta fundamentos da psicologia comportamental com práticas da engenharia e da gestão de projetos, apoiando o desenvolvimento de estratégias mais humanas, resilientes e eficazes na condução de projetos técnicos.

2. Revisão Bibliográfica

2.1 Growth Mindset: conceito e fundamentos

O termo Growth Mindset (mentalidade de crescimento) foi originalmente proposto por Carol Dweck (2006) em seus estudos sobre motivação, aprendizagem e desempenho. Segundo a autora, indivíduos com mentalidade de crescimento acreditam que suas habilidades e competências podem ser desenvolvidas por meio do esforço, da prática e da persistência. Em oposição, a mentalidade fixa (Fixed Mindset) pressupõe que as capacidades são inatas e imutáveis.

Dweck (2006) demonstrou, com base em evidências empíricas, que pessoas com mentalidade de crescimento tendem a enfrentar desafios com mais resiliência, aprendem com os erros e são mais abertas a críticas construtivas. Essa forma de pensar promove maior engajamento com o processo de aprendizagem e desenvolvimento contínuo, sendo essencial em contextos de mudança e incerteza.

Além do contexto educacional, a teoria do Mindset foi expandida para o ambiente corporativo, com destaque para o trabalho de Heslin, Latham e VandeWalle (2005), que observaram impactos positivos do Growth Mindset em avaliações de desempenho, atitudes frente ao feedback e capacidade de liderança.

2.2. Comportamentos em equipes e desempenho em projetos

Equipes de projetos operam em ambientes dinâmicos, frequentemente sujeitos a pressões por prazo, custo e inovação. Segundo o Project Management Institute (PMI, 2021), o sucesso de um projeto depende não apenas da aplicação de ferramentas e processos, mas também de fatores humanos, como colaboração, confiança, abertura ao erro e capacidade de aprendizado coletivo.

Senge (1990), ao abordar o conceito de “organizações que aprendem”, destaca a importância do desenvolvimento contínuo das equipes por meio da reflexão sobre a prática, da escuta ativa e da mentalidade de aprimoramento. A mentalidade de crescimento, nesse contexto, favorece uma cultura de aprendizado em que os erros são tratados como oportunidades de melhoria, e não como falhas definitivas (DWECK, 2012).

Tidd e Bessant (2015) ressaltam que a inovação em projetos depende não apenas de competências técnicas, mas também de uma cultura que promova a experimentação e a aceitação do fracasso como parte do processo criativo. Dessa forma, o Growth Mindset atua como catalisador do comportamento inovador nas equipes de engenharia.

2.3. Growth Mindset na engenharia e gestão de projetos

Embora o conceito de Growth Mindset tenha origem na psicologia educacional, sua aplicação em projetos de engenharia tem se mostrado promissora. Equipes de engenharia frequentemente enfrentam situações de alta complexidade e resolução de problemas técnicos. Nesses contextos, a disposição para aprender com erros, ajustar estratégias e colaborar torna-se um diferencial competitivo.

Kerzner (2017) afirma que o gerenciamento moderno de projetos deve integrar práticas técnicas com abordagens comportamentais, considerando aspectos como inteligência emocional, comunicação e aprendizado contínuo. A introdução de uma cultura baseada no Growth Mindset pode contribuir para a redução de retrabalhos, já que favorece a identificação precoce de falhas e o estímulo à melhoria contínua.

Amabile (1998) também argumenta que ambientes que recompensam o esforço e permitem a exploração de novas ideias, sem punição imediata por falhas, são mais inovadores. Isso reforça o papel da liderança em promover uma cultura que incentive a mentalidade de crescimento nas equipes.

Victor Basso (2025), CEO da Opuspac, também contribui para o debate sobre modelos mentais ao refletir sobre os riscos do crescimento desordenado em contextos complexos. Em sua obra, afirma: “Você tem um tipo de monstro. Se continuar aumentando, não estará mudando a natureza do animal, apenas ampliando seu tamanho. A complexidade continuará intocada” (BASSO, 2025, p. 68). Essa metáfora evidencia que crescer sem repensar o modelo organizacional apenas perpetua ineficiências estruturais. A ideia reforça a importância de desenvolver uma mentalidade aberta à mudança — essencial para engenheiros de produção e gestores de projetos que lidam com ambientes instáveis e exigentes.

Por fim, estudos recentes apontam que o Growth Mindset coletivo — ou seja, quando compartilhado por toda a equipe — está positivamente correlacionado com o desempenho em projetos, maior engajamento dos membros e capacidade de adaptação em ambientes incertos (CANIËLS; SEMEIJN; RENDERS, 2018).

2.4. Impactos do Growth Mindset na Resolução de Problemas em Projetos de Engenharia

A resolução de problemas é uma competência central em projetos de engenharia, onde a complexidade técnica e a pressão por resultados demandam abordagens eficazes e adaptativas. O Growth Mindset contribui diretamente para essa habilidade, pois promove a crença de que desafios difíceis são oportunidades de aprendizado e desenvolvimento (DWECK, 2006).

Indivíduos e equipes que adotam essa mentalidade tendem a persistir diante das dificuldades, buscando entender as causas dos problemas e explorar diferentes soluções, ao invés de desistir diante dos obstáculos (HESLIN; LATHAM; VANDEWALLE, 2005). Essa persistência, aliada à abertura para o feedback, permite a identificação e correção precoce de erros, reduzindo a reincidência de falhas e o retrabalho nos projetos (KERZNER, 2017).

Além disso, o Growth Mindset favorece a colaboração e a troca de conhecimentos entre os membros da equipe, fortalecendo o processo coletivo de resolução de problemas. Segundo Senge (1990), a aprendizagem organizacional acontece quando grupos desenvolvem a capacidade de refletir e agir juntos, o que é facilitado por uma cultura que valoriza a mentalidade de crescimento.

Assim, equipes que internalizam o Growth Mindset são mais resilientes e eficazes na superação dos desafios técnicos típicos dos projetos de engenharia, resultando em maior qualidade e eficiência nas entregas.

2.5. Growth Mindset como Fator de Estímulo à Inovação

A inovação é fundamental para a competitividade e sucesso dos projetos de engenharia, que operam em contextos de alta complexidade e mudanças constantes. O Growth Mindset estimula a experimentação, a criatividade e a disposição para assumir riscos calculados (TIDD; BESSANT, 2015).

Equipes que adotam essa mentalidade veem os erros não como falhas a serem evitadas, mas como passos necessários para a descoberta de soluções inovadoras (DWECK, 2006). Essa perspectiva permite maior abertura para testar novas ideias e ajustar estratégias conforme os aprendizados obtidos.

Além disso, o Growth Mindset contribui para a adaptação em ambientes incertos, pois reforça a flexibilidade cognitiva e a capacidade de aprender continuamente (CANIËLS; SEMEIJN; RENDERS, 2018). Em projetos de engenharia, onde a inovação é muitas vezes fruto da experimentação e do aprendizado prático, essa mentalidade torna-se um importante diferencial.

2.6. Influências do Growth Mindset na Cultura Organizacional e no Comportamento de Equipe

A cultura organizacional que valoriza o aprendizado contínuo e a melhoria constante é essencial para o desenvolvimento de equipes de alta performance (SENGE, 1990). O Growth Mindset serve como base para essa cultura, promovendo um ambiente no qual erros são discutidos abertamente e utilizados para crescimento coletivo.

Líderes que incentivam essa mentalidade tendem a favorecer uma comunicação transparente, promovendo feedbacks construtivos e apoio mútuo (HESLIN; LATHAM; VANDEWALLE, 2005). Isso fortalece a coesão do grupo e eleva o engajamento dos membros, fatores cruciais para o sucesso em projetos colaborativos.

Assim, a implementação do Growth Mindset vai além do indivíduo, alcançando o nível sistêmico da organização e moldando comportamentos que sustentam a inovação e a qualidade na gestão de projetos (PMI, 2021).

2.7. Aplicação do Growth Mindset na Gestão de Projetos: Ferramentas e Práticas

A incorporação do Growth Mindset na gestão de projetos pode ser feita por meio de práticas que promovem o aprendizado e a melhoria contínua, como o uso do ciclo PDCA (Planejar, Executar, Checar e Agir) e das retrospectivas em metodologias ágeis (KERZNER, 2017).

Feedbacks constantes e a análise crítica dos resultados incentivam a identificação de oportunidades de aprimoramento e a adoção de medidas corretivas, reduzindo retrabalhos e aumentando a eficiência dos processos (SENGE, 1990). Ferramentas que facilitam a comunicação e o compartilhamento de lições aprendidas são aliadas importantes para fortalecer a mentalidade de crescimento.

Além disso, treinamentos focados no desenvolvimento do Growth Mindset podem ser incorporados em programas de capacitação, ampliando o impacto positivo sobre o desempenho das equipes (HESLIN; LATHAM; VANDEWALLE, 2005).

2.8. Desafios e Limitações da Implementação do Growth Mindset em Equipes Técnicas

Apesar dos benefícios, a adoção do Growth Mindset em equipes técnicas de engenharia enfrenta desafios significativos. Barreiras culturais, como a resistência à mudança e o medo de expor falhas, podem dificultar a criação de um ambiente propício ao aprendizado (CANIËLS; SEMEIJN; RENDERS, 2018).

A mensuração do impacto do Growth Mindset também apresenta limitações, dada a natureza subjetiva dos comportamentos envolvidos e a complexidade dos fatores organizacionais (KERZNER, 2017). Ademais, a efetividade da implementação depende fortemente do comprometimento da liderança e do suporte contínuo para o desenvolvimento da mentalidade em toda a equipe.

Portanto, para que o Growth Mindset seja incorporado com sucesso, é necessário um esforço planejado e sustentado, que inclua treinamento, comunicação clara e incentiva alinhados aos valores organizacionais (PMI, 2021).

2.9. Growth Mindset e Inteligência Emocional na Engenharia

O desenvolvimento de uma mentalidade de crescimento está intimamente relacionado à inteligência emocional, especialmente em ambientes de alta pressão como os projetos de engenharia. Goleman (1998) destaca que profissionais emocionalmente inteligentes demonstram maior autoconsciência, controle emocional e empatia — atributos que também são fortalecidos pelo Growth Mindset. A disposição para aprender com o erro, aceitar críticas e perseverar diante de dificuldades exige maturidade emocional, sendo que ambas as abordagens se complementam na formação de líderes e equipes resilientes.

A integração entre Growth Mindset e inteligência emocional contribui para a criação de ambientes psicológicos seguros, onde os profissionais se sentem confortáveis para compartilhar ideias, levantar riscos e contribuir ativamente. Esses fatores são determinantes para o sucesso de projetos inovadores, nos quais a colaboração e a adaptabilidade são mais valiosas do que respostas prontas (AMABILE, 1998; SENGE, 1990).

2.10. O Papel da Liderança na Promoção do Growth Mindset

Líderes exercem papel decisivo na consolidação de uma cultura baseada no Growth Mindset. Quando gestores demonstram abertura ao aprendizado, admitem suas próprias falhas e promovem o crescimento dos colaboradores, eles modelam o comportamento esperado em suas equipes (KOUZES; POSNER, 2012). Essa liderança pelo exemplo cria um ambiente no qual o desenvolvimento contínuo é normalizado e encorajado.

Além disso, líderes eficazes utilizam práticas específicas para fomentar o Growth Mindset, como estabelecer metas desafiadoras, porém alcançáveis, reconhecer o esforço e estimular a experimentação. A literatura mostra que esse estilo de liderança transforma a relação dos profissionais com os desafios e reforça a confiança mútua (HESLIN; LATHAM; VANDEWALLE, 2005; CANIËLS et al., 2018).

2.11. Growth Mindset e Aprendizado Organizacional Contínuo

A mentalidade de crescimento está no cerne do aprendizado organizacional, permitindo que o conhecimento gerado em projetos seja efetivamente internalizado e reutilizado. Senge (1990) destaca que organizações que aprendem são aquelas capazes de adaptar seus processos com base em experiências anteriores, algo diretamente promovido por uma cultura de crescimento. O compartilhamento de boas práticas, lições aprendidas e feedbacks construtivos são mecanismos fundamentais para esse aprendizado.

O uso de bancos de dados de conhecimento, reuniões de retrospectiva e comunidades de prática são exemplos de como o Growth Mindset pode ser operacionalizado em ambientes técnicos, tornando o aprendizado um ativo estratégico e sustentável. Em engenharia, onde o conhecimento técnico evolui rapidamente, essa capacidade de aprender continuamente representa uma vantagem competitiva clara (KERZNER, 2017; PMI, 2021).

2.12. Growth Mindset na Indústria 4.0: Competências do Futuro

Com a ascensão da Indústria 4.0, marcada pela automação, inteligência artificial e integração digital, as competências humanas tornam-se ainda mais relevantes. Segundo o Fórum Econômico Mundial (2020), habilidades como resolução de problemas complexos, pensamento crítico e aprendizagem ativa são essenciais para os profissionais do futuro — todas diretamente relacionadas ao Growth Mindset. Nesse novo cenário, adaptar-se rapidamente, aprender com erros e buscar soluções criativas torna-se uma exigência estratégica. A engenharia contemporânea exige profissionais que, além de domínio técnico, demonstrem agilidade mental e predisposição à experimentação. O Growth Mindset atua, portanto, como uma base comportamental indispensável para a formação de engenheiros preparados para lidar com mudanças disruptivas e contribuir para a inovação contínua nas organizações (DWECK, 2006; BASSO, 2023).

3. Implicações Práticas

A adoção do Growth Mindset nas equipes de projetos de engenharia implica mudanças significativas na cultura organizacional e nas práticas de gestão. Gestores e líderes desempenham papel central nesse processo, sendo responsáveis por criar um ambiente que incentive o aprendizado contínuo, a experimentação e a resiliência diante de desafios.

Uma das primeiras ações recomendadas é a implementação de programas de capacitação e treinamento focados no desenvolvimento da mentalidade de crescimento. Tais programas devem abordar não apenas conceitos teóricos, mas também estratégias para aplicação prática, como a valorização do esforço, o reconhecimento dos aprendizados obtidos a partir de falhas e o estímulo à busca por soluções inovadoras (HESLIN; LATHAM; VANDEWALLE, 2005).

Além disso, os líderes devem promover uma cultura de feedback contínuo e construtivo, onde os erros não sejam punidos, mas discutidos abertamente para identificar oportunidades de melhoria. A utilização de metodologias ágeis, como reuniões de retrospectiva e ciclos curtos de avaliação, pode ser uma ferramenta eficaz para esse propósito (KERZNER, 2017).

A comunicação clara e transparente, associada à valorização da colaboração entre os membros da equipe, fortalece o senso de pertencimento e o comprometimento com os objetivos do projeto. Líderes que exemplificam o Growth Mindset em suas atitudes incentivam a adoção dessa mentalidade pelos demais integrantes, criando um efeito multiplicador positivo (SENGE, 1990).

Por fim, é fundamental que as organizações estabeleçam métricas e indicadores que permitam monitorar a evolução do Growth Mindset na equipe e seus impactos nos resultados dos projetos, como redução de retrabalho, aumento da inovação e melhoria na satisfação dos colaboradores. Esse acompanhamento contínuo facilita ajustes nas estratégias e reforça o compromisso com a melhoria contínua (PMI, 2021).

O presente estudo teórico permitiu compreender que a adoção do Growth Mindset em equipes de projetos de engenharia não é apenas uma abordagem motivacional, mas uma estratégia sólida para promover a inovação, resolver problemas de forma mais colaborativa e desenvolver uma cultura organizacional resiliente. Através da revisão da literatura, constatou-se que a mentalidade de crescimento influencia diretamente o comportamento dos indivíduos em cenários de incerteza e pressão, o que é característico da gestão de projetos de engenharia. Ao reforçar o aprendizado contínuo, a abertura ao feedback e a valorização do esforço, esse mindset favorece um ambiente propício ao desenvolvimento de soluções criativas e à melhoria dos resultados. Espera-se que este artigo contribua para ampliar a discussão sobre práticas de gestão mais humanas e eficazes no campo da engenharia de produção.

4. Discussão

Ao observar as contribuições dos principais autores abordados neste estudo, é possível perceber que o conceito de Growth Mindset vai além de uma teoria sobre motivação individual. Ele representa um conjunto de práticas e crenças que, quando incorporados ao cotidiano de equipes de engenharia, contribuem para a construção de ambientes mais adaptáveis, inovadores e resilientes.

Dweck (2006) oferece a base conceitual, mostrando que o modo como as pessoas enxergam sua própria capacidade de aprender influencia diretamente a forma como enfrentam desafios. Esse entendimento é essencial em contextos como a engenharia, onde erros e incertezas fazem parte da rotina. No entanto, é preciso destacar que, para além da mudança individual, há uma dimensão coletiva que precisa ser considerada.

Autores como Senge (1990) e Kerzner (2017) ajudam a ampliar essa discussão ao apontar que o aprendizado precisa ser promovido dentro da cultura organizacional. Quando há espaço para escuta, reflexão sobre práticas e troca de experiências, as equipes passam a aprender de forma mais colaborativa e contínua. O Growth Mindset, nesse cenário, torna-se uma base comportamental que apoia o desenvolvimento técnico com uma mentalidade voltada à melhoria constante.

Além disso, o PMI (2021) destaca que o sucesso de projetos vai além da aplicação de metodologias. Fatores humanos, como o engajamento da equipe, a comunicação eficaz e a abertura ao erro, são cada vez mais decisivos. É nesse ponto que o Growth Mindset se conecta diretamente com a gestão de projetos: ele contribui para uma cultura em que o erro é visto como oportunidade de aprendizado e não como fracasso.

Outro ponto relevante é a contribuição de Heslin, Latham e Vandewalle (2005), que mostram como líderes com mentalidade de crescimento tendem a incentivar mais o desenvolvimento das suas equipes, criando um ciclo positivo de aprendizagem e engajamento. Esses comportamentos são especialmente valiosos em contextos técnicos, nos quais a pressão por resultados pode inibir a experimentação e a criatividade.

Nesse sentido, a provocação de Basso (2023) é bastante pertinente: ele alerta para o risco de buscar crescimento sem transformar o modelo mental que sustenta as decisões e comportamentos organizacionais. Em outras palavras, não basta implementar tecnologias ou metodologias se a equipe ainda opera com crenças limitantes sobre o erro, o desempenho e o potencial de mudança.

Por fim, ao associar o Growth Mindset à inteligência emocional, como propõe Goleman (1998), amplia-se ainda mais o campo de aplicação desse conceito. A capacidade de lidar com frustrações, escutar feedbacks e manter o equilíbrio em momentos de pressão está diretamente ligada à criação de um ambiente psicologicamente seguro — condição necessária para que o aprendizado realmente aconteça. Portanto, mais do que uma ideia teórica, o Growth Mindset se revela uma abordagem prática e estratégica para lidar com os desafios da engenharia contemporânea. Seu valor está em criar condições para que os profissionais possam se desenvolver continuamente, contribuindo com soluções criativas e colaborativas mesmo em cenários adversos.

5. Considerações Finais

O presente artigo evidenciou que a adoção do Growth Mindset em equipes de engenharia de produção e gestão de projetos representa um diferencial estratégico para a melhoria da resolução de problemas e estímulo à inovação. A mentalidade de crescimento promove a persistência diante dos desafios, a abertura para o aprendizado a partir de erros e a colaboração, fatores essenciais para o sucesso em ambientes técnicos complexos.

Além disso, demonstrou-se que o Growth Mindset influencia positivamente a cultura organizacional, fortalecendo comportamentos que valorizam o aprendizado contínuo, o feedback construtivo e o engajamento dos membros da equipe. A incorporação dessa mentalidade nas práticas de gestão, especialmente por meio de ferramentas como o ciclo PDCA e metodologias ágeis, contribui para a redução do retrabalho e o aumento da eficiência nos projetos.

No entanto, a implementação do Growth Mindset não está isenta de desafios, incluindo barreiras culturais e dificuldades na mensuração dos seus impactos. Assim, torna-se imprescindível o comprometimento da liderança e o desenvolvimento de estratégias específicas para promover e sustentar essa mudança comportamental. Portanto, o Growth Mindset configura-se como um elemento fundamental para a competitividade e sustentabilidade das equipes de engenharia, sugerindo-se a ampliação de estudos que aprofundem sua aplicação prática e impacto em diferentes contextos organizacionais.

Referências Bibliográficas

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BASSO, Victor. Healthcare Mindset: para tempos exponenciais. São Paulo: Opuspac University, 2025.

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PMI – PROJECT MANAGEMENT INSTITUTE. Guia PMBOK®: um guia do conjunto de conhecimentos em gerenciamento de projetos. 7. ed. Newtown Square, PA: Project Management Institute, 2021.

SENGE, P. M. A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende. Tradução de Maria José Cyhlar Monteiro. São Paulo: BestSeller, 1990. TIDD, J.; BESSANT, J. Managing innovation: integrating technological, market and organizational change. 5. ed. Chichester: John Wiley & Sons, 2015.

TIDD, J.; BESSANT, J. Managing innovation: integrating technological, market and organizational change. 5. ed. Chichester: John Wiley & Sons, 2015.

Embalagens Herméticas na Unitarização de Medicamentos: Segurança e Conformidade com a NR-32

Quando falamos em segurança no ambiente hospitalar, a maioria das práticas e discussões costuma estar direcionada à Segurança do Paciente. No entanto, é fundamental lembrar que a Segurança do Profissional da Saúde também deve ser uma prioridade — especialmente na manipulação, preparo e manuseio de medicamentos unitarizados. A exposição a resíduos de medicamentos, partículas ou contaminação cruzada representa um risco real para quem atua diretamente nesses processos.

A unitarização de medicamentos, quando realizada com o uso de embalagens herméticas, representa uma prática que fortalece dois pilares essenciais no ambiente hospitalar: a Segurança do Profissional da Saúde e a Segurança do Próprio Medicamento e por consequência a Segurança do Paciente. Para o profissional, esse tipo de embalagem reduz significativamente o risco de exposição a resíduos químicos e contaminações durante o manuseio e transporte dos medicamentos unitarizados. Para o medicamento, a vedação hermética assegura a manutenção da estabilidade físico-química, protege contra umidade, luz e agentes externos, além de garantir a rastreabilidade e a correta identificação até o momento da administração.

Essa abordagem está diretamente alinhada com os princípios da NR-32, norma regulamentadora que trata da Segurança e Saúde no Trabalho em Serviços de Saúde, estabelecida pela Portaria GM n.º 485/2005 do Ministério do Trabalho. A norma orienta a adoção de medidas que minimizem riscos ocupacionais, reforçando a importância de práticas seguras em todas as etapas do circuito do medicamento dentro do hospital.

Vedado, Selado ou Hermético: Entenda as Diferenças

Para garantir a segurança dos medicamentos e dos profissionais da saúde no ambiente hospitalar, é essencial compreender o nível de proteção que cada tipo de fechamento de embalagem oferece. O modo como um medicamento é acondicionado pode influenciar diretamente sua estabilidade, eficácia e também o risco de exposição para quem o manipula.

  • Vedado: Refere-se a um fechamento simples, feito com tampas, dobras, presilhas ou fitas adesivas. Embora ofereça uma leve barreira física, esse tipo de vedação não é estanque, o que permite a entrada de partículas, ar, umidade ou micro-organismos. Além disso, uma embalagem apenas vedada pode se abrir facilmente durante o transporte ou armazenamento, o que aumenta o risco de contaminação cruzada, degradação do medicamento e exposição acidental do profissional.
  • Selado: Utiliza técnicas como calor, pressão ou adesivos para fundir ou colar as partes da embalagem. Esse tipo de fechamento é mais resistente que o vedado, sendo capaz de suportar melhor o manuseio e o transporte. Porém, sua eficiência depende da qualidade do material e do processo de selagem. Selagens mal executadas ou com materiais de baixa qualidade podem permitir trocas gasosas com o ambiente e comprometem a barreira microbiológica, oferecendo proteção parcial.
  • Hermético: É o padrão mais alto de vedação. Embalagens herméticas criam um fechamento absoluto, sem qualquer passagem de ar, vapor, umidade ou contaminantes. Elas formam uma barreira física integral entre o conteúdo e o ambiente externo. Essa característica é essencial não apenas para preservar a estabilidade físico-química do medicamento, mas também para proteger os profissionais da saúde contra exposição acidental a resíduos ou vapores farmacêuticos. No contexto da NR-32, as embalagens herméticas contribuem significativamente para a minimização de riscos ocupacionais e a conformidade com os protocolos de biossegurança.
Tipo de FechamentoPrósContras
Vedado• Simples e rápido de aplicar
• Custo inicial baixo
• Baixa proteção contra umidade e micro-organismos
• Pode se abrir facilmente
• Risco de contaminação cruzada
• Não atende plenamente à NR-32
Selado• Melhor vedação que o vedado
• Reduz exposição acidental
• Custo moderado
• Pode permitir trocas com o ambiente se mal executado
• Requer atenção ao material e processo de selagem
Hermético• Vedação total contra ar, umidade, poeira e contaminantes
• Mantém a integridade do medicamento
• Protege o profissional de saúde
• Alinha-se às exigências da NR-32
• Requer equipamento adequado
• Pode ter custo um pouco mais elevado devido a qualidade das embalagens
Tabela Comparativa: Vedado x Selado x Hermético

Exposição Ocupacional: Um Risco Subestimado

No ambiente hospitalar, a quebra acidental de ampolas é mais comum do que se imagina. Quando esses frascos de vidro não estão devidamente unitarizados em embalagens herméticas, o risco de contaminação para o profissional da saúde aumenta consideravelmente.

Ao se romper, uma ampola pode libera substâncias farmacológicas — muitas vezes tóxicas, irritantes ou sensibilizantes — diretamente sobre a pele, olhos ou mucosas de quem a manuseia. Esses acidentes, ainda que considerados pequenos, representam riscos ocupacionais graves, especialmente quando envolvem medicamentos como antibióticos, anestésicos, sedativos ou quimioterápicos.

Segundo a NR-32, é dever do empregador adotar medidas que previnam a exposição dos trabalhadores a agentes químicos, físicos e biológicos. Isso inclui a correta embalagem, transporte e armazenamento de medicamentos, com foco na proteção da integridade física dos colaboradores.

Quando a embalagem hermética faz a diferença:

  • Contenção de resíduos líquidos e fragmentos em caso de quebra da ampola, evitando contato direto com a pele;
  • Barreira contra respingos acidentais, reduzindo risco de contaminação dérmica ou ocular;
  • Redução da manipulação direta das ampolas, promovendo maior segurança no transporte interno e no armazenamento;
  • Facilidade na identificação visual de danos, já que a embalagem hermética transparente permite verificar se há ruptura ou vazamento sem abrir o invólucro.

Exemplos de Contaminações e Danos ao Profissional de Saúde

Quando as ampolas de medicamentos injetáveis se rompem e não estão devidamente acondicionadas em embalagens herméticas, o risco de contaminação do profissional da saúde é significativo. A quebra dessas ampolas pode resultar em várias formas de exposição acidental, dependendo do tipo de medicamento e do ambiente hospitalar. A seguir, são apresentados alguns exemplos de contaminações e dano que podem ocorrer:

1. Exposição a Medicamentos Anticoagulantes

Medicamentos utilizados para prevenir a formação de coágulos, como heparina ou warfarina, representam um risco significativo para os profissionais da saúde. Quando uma ampola de anticoagulante se quebra, o risco de exposição ao profissional aumenta consideravelmente. A contaminação pode ocorrer por:

  • Contato dérmico: A substância pode entrar em contato com a pele do profissional, causando reações alérgicas ou irritações.
  • Inalação de vapores: Embora menos comum, o contato com os vapores de anticoagulantes pode afetar as vias respiratórias, causando desconforto ou, em casos mais raros, sintomas respiratórios.
  • Contaminação ocular: Caso o medicamento entre em contato com os olhos, pode provocar sérias lesões, como queimaduras químicas ou irritação ocular.

2. Exposição a Medicamentos Anestésicos

Os medicamentos anestésicos, frequentemente utilizados em cirurgias e procedimentos invasivos, são outra classe de substâncias de risco. Quando uma ampola de anestésico se rompe, a exposição acidental pode resultar em:

  • Absorção sistêmica: Caso o anestésico entre em contato com a pele ou mucosas, ele pode ser absorvido rapidamente pela corrente sanguínea, causando efeitos adversos como hipotensão, arritmias cardíacas e outros danos ao sistema nervoso central.
  • Risco de inalação: Medicamentos anestésicos voláteis podem liberar vapores que, quando inalados, podem causar efeitos depressivos no sistema nervoso central, levando a sonolência excessiva, dificuldade respiratória e, em casos graves, comprometimento da função cardíaca.

3. Exposição a Antibióticos

Antibióticos intravenosos, como penicilinas ou cefalosporinas, podem causar reações alérgicas graves em profissionais sensíveis. A quebra de uma ampola de antibiótico pode resultar em:

  • Contato dérmico e reações alérgicas: A exposição acidental a antibióticos pode causar erupções cutâneas, urticária, ou até reações mais graves, como anafilaxia, uma reação alérgica potencialmente fatal.
  • Inalação de partículas: Em caso de frascos quebrados, pode haver a liberação de partículas do medicamento, que ao serem inaladas podem causar reações alérgicas respiratórias, como rinite, asma ou dificuldade respiratória.

4. Exposição a Medicamentos Imunossupressores

Medicamentos imunossupressores, como metotrexato ou ciclosporina, usados para controlar doenças autoimunes ou prevenir a rejeição em transplantes, também representam riscos graves. Quando as ampolas desses medicamentos se rompem, a exposição ao profissional pode ocorrer por:

  • Contato dérmico: A substância pode ser absorvida através da pele, potencialmente prejudicando o sistema imunológico do profissional e causando reações como irritações cutâneas ou infecções secundárias devido à imunossupressão.
  • Inalação: Alguns imunossupressores podem liberar partículas que, ao serem inaladas, podem afetar o sistema respiratório, levando a dificuldades respiratórias ou infecções pulmonares.
  • Contaminação ocular: Caso o medicamento entre em contato com os olhos, pode ocorrer uma irritação ocular severa ou infecções, especialmente se o sistema imunológico estiver comprometido.

Análise Relacionada a Vedado, Selado e Hermético

Exposição a Medicamentos Anticoagulantes

  • Vedado: Se a ampola de anticoagulante estiver vedada, ou seja, com um fechamento simples, o risco de contaminação ao profissional ainda é alto. A embalagem vedada pode não impedir a entrada de ar ou umidade, e caso a ampola se rompa, a contaminação por contato dérmico ou inalado pode ocorrer mais facilmente, visto que o fechamento não oferece uma barreira eficaz contra substâncias voláteis ou partículas.
  • Selado: Uma embalagem selada oferece uma proteção maior, limitando a troca de substâncias com o ambiente. No entanto, se a ampola se romper, ainda existe um risco significativo de contaminação, embora a liberação de vapores ou partículas seja mais controlada em comparação com o vedado. A selagem melhora a integridade do produto, mas não elimina completamente os riscos de exposição.
  • Hermético: Se a ampola for hermeticamente fechada, o risco de contaminação é significativamente reduzido. Em caso de rompimento, a proteção oferecida pela embalagem hermética impediria a liberação de substâncias externas e ajudaria a evitar a exposição direta ao medicamento, reduzindo o risco de contaminação por contato dérmico, inalação ou contato ocular.

Exposição a Medicamentos Anestésicos

  • Vedado: O fechamento vedado de uma ampola de anestésico é insuficiente para proteger o profissional da saúde em caso de rompimento. A exposição ao ar ou vapores voláteis é facilitada, o que pode levar a riscos de inalação e absorção sistêmica, com consequências graves para o sistema nervoso central e respiratório.
  • Selado: Uma embalagem selada ajuda a reduzir a liberação de vapores durante o transporte e manuseio. Contudo, em caso de rompimento da ampola, ainda pode ocorrer exposição respiratória ou dérmica aos anestésicos voláteis, com riscos de efeitos adversos graves, como hipotensão e arritmias cardíacas.
  • Hermético: O fechamento hermético protegeria o medicamento e impediria a liberação de vapores voláteis durante o manuseio e transporte. No caso de rompimento, a liberação de partículas ou vapores seria quase inexistente, reduzindo drasticamente os riscos de inalação ou contato com o produto, o que aumentaria a segurança do profissional.

Exposição a Antibióticos

  • Vedado: O fechamento vedado não impede totalmente o risco de contaminação, especialmente se a ampola de antibiótico se romper. A liberação de partículas ou contato dérmico com o antibiótico pode resultar em reações alérgicas graves. O risco de inalação também é considerável, pois o vedado não oferece barreira contra a dispersão de partículas.
  • Selado: A embalagem selada pode oferecer alguma proteção, dificultando a liberação de partículas ou vapores. No entanto, em caso de rompimento da ampola, o risco de exposição dérmica ou inalação de partículas ainda é significativo, o que pode resultar em reações alérgicas graves, como anafilaxia.
  • Hermético: Quando a embalagem é hermética, a probabilidade de contaminação por partículas ou vapores é mínima, mesmo em caso de rompimento da ampola. O fechamento hermético ajuda a preservar o conteúdo da ampola e a evitar a dispersão do medicamento, protegendo assim os profissionais de saúde contra exposições indesejadas.

Exposição a Medicamentos Imunossupressores

  • Vedado: Medicamentos imunossupressores, como metotrexato, são altamente perigosos, e o fechamento vedado oferece uma proteção insuficiente contra a contaminação do profissional. A exposição ao medicamento por contato dérmico ou inalação é mais provável, uma vez que a embalagem vedada não impede a dispersão do conteúdo.
  • Selado: Com a embalagem selada, a proteção aumenta em relação ao vedado, mas ainda não elimina o risco de exposição acidental. Caso a ampola se rompa, a liberação de partículas ou vapor do imunossupressor ainda pode ocorrer, resultando em potenciais danos ao sistema imunológico do profissional.
  • Hermético: O fechamento hermético, por sua vez, impede qualquer troca com o ambiente. Em caso de rompimento, a liberação de partículas ou vapores do medicamento seria praticamente inexistente. A proteção hermética garantiria que a substância não se dispersasse, reduzindo significativamente os riscos de contaminação dérmica, respiratória ou ocular.

Vedado, Selado e Hermético – Análise sobre a NR32

  • Vedado: As embalagens vedadas não atendem plenamente à NR-32, pois, embora ofereçam proteção inicial, são insuficientes para evitar a exposição aos resíduos e agentes químicos. Elas permitem a passagem de partículas e vapores, o que pode resultar em contaminação cruzada ou exposição acidental ao profissional.
  • Selado: Embalagens seladas oferecem uma proteção superior à vedada, mas ainda apresentam riscos em caso de rompimento. A eficiência da selagem depende da qualidade do material e do processo de execução, o que pode comprometer a barreira microbiológica.
  • Hermético: As embalagens herméticas são as mais adequadas, pois fornecem uma vedação total, impedindo a troca de ar, umidade, luz e contaminantes. Elas atendem plenamente aos requisitos da NR-32, oferecendo uma proteção eficaz contra a exposição ocupacional e a contaminação do medicamento.

Embalagens Herméticas e NR32

As embalagens herméticas atendem diretamente às exigências da NR-32, que estabelece normas de segurança e saúde para os trabalhadores da área da saúde, especialmente no que se refere à proteção contra a exposição a agentes químicos, biológicos e físicos. A NR-32, conforme estabelecido pela Portaria GM n.º 485/2005 do Ministério do Trabalho, exige que os empregadores adotem medidas para minimizar a exposição ocupacional a substâncias perigosas, incluindo a utilização adequada de sistemas de acondicionamento de medicamentos e produtos farmacêuticos, sendo:

  1. Segurança no Manuseio de Medicamentos: A NR-32 destaca a importância de controlar a exposição dos trabalhadores a substâncias perigosas, como medicamentos que podem causar reações alérgicas, intoxicações ou danos ao sistema imunológico, entre outros. As embalagens herméticas, ao criar um fechamento absoluto, impedem a liberação de substâncias voláteis, líquidos ou partículas que podem representar riscos à saúde dos profissionais. Isso está em conformidade com a diretriz da NR-32 que orienta a utilização de métodos para prevenir a exposição a agentes químicos no ambiente hospitalar.
  2. Proteção Contra Contaminação: As embalagens herméticas minimizam a contaminação cruzada e protegem os profissionais da saúde contra substâncias farmacológicas, como antibióticos, anestésicos e medicamentos imunossupressores, que são frequentemente manipulados no ambiente hospitalar. No caso de frascos quebrados, a embalagem hermética contém resíduos e fragmentos, reduzindo o risco de contato com a pele, olhos e mucosas dos profissionais, além de prevenir a inalação de vapores ou partículas. Esse nível de proteção está diretamente alinhado com o objetivo da NR-32 de evitar riscos ocupacionais causados por substâncias perigosas.
  3. Manutenção da Estabilidade e Segurança do Medicamento: A NR-32 também enfatiza a necessidade de garantir a estabilidade dos medicamentos durante o seu armazenamento e transporte. As embalagens herméticas protegem os medicamentos contra fatores como umidade, luz e contaminação ambiental, preservando sua eficácia e estabilidade físico-química. Essa prática está em conformidade com a norma, que busca garantir não apenas a segurança do profissional, mas também a integridade dos produtos e, por conseguinte, a segurança do paciente.
  4. Facilidade na Identificação de Danos: A NR-32 recomenda que os profissionais de saúde possam identificar rapidamente qualquer risco ou dano durante a manipulação de medicamentos. As embalagens herméticas, quando transparentes, permitem uma verificação visual da integridade da embalagem, facilitando a identificação de rompimentos ou vazamentos sem a necessidade de abrir o invólucro. Isso garante uma ação preventiva mais eficaz e rápida, atendendo aos requisitos de segurança da norma.

Conclusão

A conformidade com a NR-32 é essencial para garantir a segurança no ambiente hospitalar, tanto para os profissionais de saúde quanto para os pacientes. A norma estabelece a necessidade de medidas para minimizar a exposição ocupacional a agentes químicos, biológicos e físicos, com foco na proteção dos trabalhadores da saúde durante o manuseio de medicamentos. Nesse contexto, as embalagens herméticas se destacam como uma solução eficaz e alinhada aos requisitos da NR-32.

As embalagens herméticas oferecem uma proteção superior ao impedir a liberação de partículas, vapores e líquidos, prevenindo o risco de contaminação cruzada e exposição acidental a medicamentos perigosos, como antibióticos, anestésicos e quimioterápicos. Essa vedação total é crucial para garantir a segurança dos profissionais de saúde ao evitar o contato dérmico, a inalação ou a contaminação ocular durante a manipulação de medicamentos. Além disso, a embalagem hermética contribui para a preservação da integridade dos medicamentos, evitando alterações na estabilidade físico-química e garantindo a sua eficácia até o momento da administração. Portanto, a utilização de embalagens herméticas não só atende às exigências da NR-32, mas também proporciona um ambiente mais seguro, minimizando riscos ocupacionais, promovendo a segurança dos medicamentos e, consequentemente, a segurança do paciente. Este tipo de embalagem representa uma medida eficaz para prevenir danos ao profissional de saúde e assegurar a qualidade e eficácia dos tratamentos no ambiente hospitalar, alinhando-se com os princípios de biossegurança e saúde ocupacional da NR-32.

Fernando Capabianco

Farmacêutico – CRF/SP 42007

Opuspac University

Conectando Realidade e Futuro com uma Visão Holística

Estamos continuamente expostos a novidades científicas e tecnológicas no setor da saúde, sendo frequentemente impactados por conceitos inovadores que ainda não compreendemos plenamente. Termos como medicina de precisão, integração entre genética e nanotecnologia, e avanços em Inteligência Artificial (IA) despertam entusiasmo e expectativa. Além das já consolidadas aplicações da telemedicina, a IA avança rapidamente em pesquisas médicas, emissão de laudos precisos e transcrição automática de consultas. Destacam-se também os dispositivos vestíveis, ou wearables, com sensores pessoais avançados integrados a centros de comando que usam IA prometendo revolucionar os serviços de saúde. Tecnologias emergentes como blockchain, Internet das Coisas (IoT), realidade aumentada e virtual, robótica avançada, computação quântica, hiperconectividade e biotecnologia criam um cenário empolgante e complexo.

Já estamos vivendo de fato, uma era de crescimento exponencial e de complexidade tecnológica.

No entanto, como profissional da tecnologia, acredito que não podemos esperar que todos os problemas sejam resolvidos exclusivamente por avanços tecnológicos. Essa visão reducionista é conhecida como “tecno-escapismo” ou fuga para o futuro (escape forward). Focar excessivamente no futuro pode fazer com que negligenciemos desafios presentes fundamentais.

Proponho um equilíbrio saudável entre valorizar a inovação tecnológica e gerir eficientemente os desafios atuais.

Precisamos de atenção a temas essenciais de gestão como:

  • Migração de uma cultura conservadora para uma cultura de inovação;
  • Avanço na transparência das operações;
  • Valorização da medicina baseada em valor;
  • Construção de acordos para maior colaboração entre os diferentes atores do ecossistema de saúde;
  • Desenvolvimento de novos modelos de negócios sustentáveis;
  • Redução de desperdícios com metodologias como Lean Healthcare;
  • Sustentabilidade e aumento da rentabilidade das operações.

Esses temas são abordados com profundidade no meu livro “Healthcare Mindset para Tempos Exponenciais” acesse grátis https://opuspac-university.com/biblioteca/.

Gerir bem, utilizando ferramentas já estabelecidas, pode não ter o glamour da exploração tecnológica, mas é fundamental. Muitos querem ser pioneiros tecnológicos, mas poucos valorizam uma gestão eficiente. Atualmente, o maior objetivo do setor de saúde deveria ser recuperar rentabilidade operacional. Sem rentabilidade, não haverá condições financeiras para investir nas novas tecnologias necessárias, ampliando ainda mais a lacuna entre hospitais líderes e os demais.

A qualidade operacional é crucial para aumentar a rentabilidade. Sem avanços significativos na segurança do paciente, continuaremos desperdiçando recursos preciosos.

Dados da OCDE e da OMS revelam que cerca de 15% dos gastos hospitalares globais são decorrentes de eventos adversos como erros de medicação, infecções hospitalares, quedas de pacientes, úlceras de pressão e tromboembolismo venoso (https://www.oecd.org/content/dam/oecd/en/publications/reports/2017/06/the-economics-of-patient-safety_258f9682/5a9858cd-en.pdf).

Um estudo recente da Opuspac University mostrou, que no Brasil, 80% dos Núcleos de Segurança não funcionam adequadamente, e muitos profissionais desconhecem sua existência dentro dos hospitais.

Além disso, aproximadamente 30% dos recursos hospitalares são desperdiçados em atividades que não agregam valor nem ao paciente nem ao processo. Nenhuma atividade econômica sustentável pode aceitar tais níveis de desperdício. As técnicas de Lean Healthcare, embora pouco difundidas no país, já demonstraram resultados expressivos internacionalmente, reduzindo significativamente caminhadas das equipes, espaço utilizado e tempo para execução de tarefas, como documentado no meu livro Cultura Lean Healthcare (acesse grátis https://opuspac-university.com/biblioteca/).

É fundamental evitar que o fascínio constante pela próxima inovação tecnológica nos distraia das soluções já disponíveis e eficazes.

Por exemplo, o uso de código de barras à beira do leito reduz em até 92% eventos adversos, mas é adotado por apenas 10% dos hospitais brasileiros (saiba mais: https://www.hcrp.usp.br/revistaqualidade/uploads/Artigos/154/154.pdf).

O problema maior é que em nosso reduzido tempo de atenção, um tema encobre o outro e sua caraterística utópica, ou seja, inalcançável tem uma função paralisante em nossa gestão.

Nosso grande desafio atual é alcançar rentabilidade que sustente os investimentos nas tecnologias emergentes. Caso contrário, todo esse debate sobre as fronteiras tecnológicas na saúde corre o risco de se tornar apenas mais uma utopia distante, desconectada da realidade diária.

Otimização de Custos Hospitalares Através de Reestruturação de Processos da Cadeia Medicamentosa em Hospital Público

Optimization of hospital costs through restructuring of medication chain processes in a public hospital.

Por: Larissa Santos Gonzaga de Mattos

Farmacêutica clínica e hospitalar, gestora de farmácia e suprimentos em hospital público.

RESUMO

O trabalho apresentado possui o propósito de demonstrar a efetividade das ações de reestruturação da cadeia medicamentosa, bem como os seus benefícios ao ambiente hospitalar, tanto na gestão de qualidade quanto para a gestão de custos hospitalares.

Foi desenvolvido através da análise criteriosa dos processos desempenhados, revisão de projetos e protocolos tais como, aprazamento eletrônico da precrição médica, adequação dos turnos de dispensação de medicamentos e materiais hospitalares, implantação das farmácias satélites nos andares.

Os resultados apresentados são além de otimização dos custos hospitalares, a melhoria da assistência beira leito pelo profissional de enfermagem, visto que este não exerce nenhuma atividade de gestão e gerenciamento de sub estoques, nem tão pouco necessita se deslocar a outros andares para a retirada de medicamentos e materiais.

Conclui-se que todas as atividades propostas corroboraram com a melhoria continua, reduzindo índices de devolução e sucessivamente de retrabalho, bem como reduzindo a representatividade de medicamentos e materiais nas despesas hospitalares.

SUMMARY

The work presented aims to demonstrate the effectiveness of restructuring actions in the medication chain, as well as its benefits to the hospital environment, both in quality management and hospital cost management. It was developed through careful analysis of the processes performed, review of projects and protocols such as electronic scheduling of medical, prescriptions, adjustment of shifts for dispensing medicines and hospital materials, implementation of satellite pharmacies on the floors.

The results presented are, in addition to optimizing hospital costs, improving bedside assistance by nursing professionals, as they do not carry out any management or sub-stock management activities, nor do they need to travel to other floors to remove items. medicines and materials.

It is concluded that all proposed activities corroborated continuous improvement, reducing returns and successively rework rates, as well as reducing the representation of medicines and materials in hospital expenses.

INTRODUÇÃO

O farmacêutico é o profissional de saúde responsável por todo o processo medicamentoso, sendo ele desde a aquisição, armazenamento e distribuição de medicamentos e materiais, este trabalho possui a finalidade de garantir a disponibilidade e efetividade destes recursos terapêuticos assegurando o recurso correto, no tempo correto e com o melhor custo benefício possível.

A atuação logística do farmacêutico hospitalar consiste na análise de estoques e consumos, necessidade de compras e otimização de recursos e processos. Para compreendermos a otimização do processo é essencial o entendimento da metodologia utilizada anteriormente: após a realização da prescrição médica, o profissional farmacêutico realizava a avaliação e liberação via sistema informatizado no período diurno, liberando os medicamentos prescritos para as próximas 24 horas de atendimento ao paciente, esta liberação segue ao auxiliar de farmácia, onde seis profissionais atuavam como responsáveis pela realização da separação e conferência via sistema informatizado, assim como a entrega dos medicamentos aos profissionais de enfermagem, que por sua vez, realizavam a dupla conferência dos medicamentos e administração nos horários aprazados manualmente pela equipe de enfermeiros, após as 24 horas de atendimento os medicamentos não administrados eram devolvidos à farmácia para realização das devoluções via sistema informatizado, gerando retrabalho a todos os profissionais envolvidos.

Os materiais utilizados no atendimento ao paciente, eram administrados pelo setor de suprimentos e enfermagem, sem a supervisão do profissional farmacêutico, sendo de responsabilidade do enfermeiro a gestão do seu estoque descentralizado, bem como a emissão do pedido de reposição através do método Kanban. Viu-se a necessidade de revisão deste processo internamente, devido ao alto tempo empregado pelo profissional de enfermagem na emissão destes pedidos, alto índice de devoluções de medicamentos ao setor de farmácia devido as condições clinicas do paciente que sofrem diversas alterações no prazo de 24 horas, bem como ao alto consumo de medicamentos e materiais por paciente dia.

O objetivo deste artigo é demonstrar a evolução e otimização de custos através da reestruturação interna de processos de logística hospitalar, tais como, implantação de farmácias satélites especializadas por unidade de internação, revisão de metodologia de dispensação de medicamentos e matérias, além do monitoramento da gestão de custos hospitalares. Tal abordagem não resulta apenas na redução de custos hospitalares, mas também gera impactos positivos na segurança do paciente, garantindo atendimento ágil pela equipe de farmácia e a otimização do tempo de enfermagem beira-leito, prestando assistência ao paciente.

REFERENCIAL TEÓRICO

O referencial teórico do artigo esta pautado em diversas abordagens referente a reestruturação de processos da cadeia medicamentosa nos hospitais públicos, estas corroboram com os resultados apresentados durante o desenvolvimento deste projeto evidenciando os ganhos tanto em custos hospitalares, quanto em ganhos assistenciais ao paciente.

Na farmácia hospitalar segundo a Sbrafh, nos assegura a importância do farmacêutico hospitalar na gestão de processos de medicamentos e materiais, desde a sua compra – aquisição, até o consumo – dispensação, bem como em seus processos pós consumo (Farmacovigilância). Esta abordagem é essencial para entender como processos bem estruturados de compra e monitoramento de estoque podem impactar diretamente na segurança ao paciente, eficiência operacional e consequentemente na redução de custos.

Na Logística Hospitalar, livro desenvolvido pela Opuspac com a teoria de gerenciamento de recursos para uma assistência de qualidade, ressalta-se a importância de práticas para melhor controle de estoque de medicamentos tais como excesso de estoque e falta de estoque, os fluxos continuo de ressuprimento das farmácias satélites onde os pedidos de reposição devem ser realizados através das farmácias satélites, pensando na otimização dos recursos e diminuição dos estoques descentralizados, sempre com o foco na otimização do atendimento pela farmácia.

Baseado nas duas teorias apresentadas e na vivência no hospital ao qual o novo fluxo foi aplicado, observamos que a reestruturação dos processos na cadeia medicamentosa foi necessária não apenas para redução de custos, mas para garantir eficiência operacional qualidade no atendimento ao paciente e melhorias na gestão hospitalar.

METODOLOGIA

Com a implantação reestruturação do processo medicamentoso, otimizamos os seguintes fluxos institucionais:

Aprazamento eletrônico das prescrições médicas: este processo definiu horários padronizados via sistema eletrônico para administração de medicamentos, sendo que anteriormente o enfermeiro realizava todos esses aprazamentos manualmente “a caneta na prescrição médica”, é possível respeitar as particularidades dos medicamentos como “Levotiroxina – Jejum”, visto que no sistema informatizado foi parametrizado horários que contemplem todas as particularidades dos fármacos disponíveis na instituição. Através dos aprazamentos eletrônicos o processo de dispensação de medicamentos foi organizado para não mais triar, separar e dispensar medicamentos para turnos de 24 horas e sim dispensar medicamentos para 8 horas, diminuindo as taxas de devoluções de medicamentos.

Implantação das farmácias satélites: este projeto foi realizado durante os anos de 2023 e 2024. Anteriormente os medicamentos eram dispensados na farmácia central localizada no 1º Andar (exceto fluxo pronto socorro), os medicamentos eram dispensados para 24 horas, entregues aos colaboradores de enfermagem que possuíam a responsabilidade de guarda dos itens até o próximo turno. Para acréscimos de prescrição médica como itens prescritos nos critérios “Se necessário- utilizados para caso de dor ou febre” ou ACM “ a critério médico”, eram retirados pelo profissional de enfermagem que se deslocava de seu posto de trabalho até a farmácia central para a retirada do medicamento, ocasionando demora no atendimento, ausência do colaborador da enfermagem beira-leito e gerando estoques descentralizados no posto de enfermagem.

Incorporação do fluxo de gestão de estoque de materiais ao fluxo de farmácia: Este projeto foi executado de 2023 a 2024, e possui a finalidade de absorver os sub estoques disponíveis nas clínicas de internação para o processo de farmácia, sendo as dispensações controladas pelo profissional da farmácia, reduzindo o tempo do profissional de enfermagem na gestão do estoque e realização de pedidos, e consequentemente melhorando a assistência ao paciente, além de reduzir os consumos hospitalares, devido ao acompanhamento do consumo dos itens pelo profissional farmacêutico.

ANÁLISE DOS RESULTADOS E DISCUSSÕES

Com as adequações supracitadas, observamos melhoria na gestão financeira da instituição, materiais e medicamentos geravam um grande impacto financeiro na instituição, ocasionavam retrabalho tanto a equipe de enfermagem quanto para a equipe de farmácia nos processos de fracionamento, dispensação e devolução dos medicamentos.

Gráfico comparativo de devoluções de 2022 a 2024

Fonte: Próprio autor

Observamos a queda de 8,79% de medicamentos devolvidos sem uso ao setor de farmácia em 2022, para 1,53% em 2024 após a conclusão da reestruturação dos fluxos citados neste artigo.

Concluímos que os materiais e medicamentos em 2022 representavam cerca de 16,50% das despesas hospitalares, entretanto após as adequações de processos logísticos da cadeia medicamentosa este custo passou a representar 14,75% das despesas hospitalares, sendo uma queda de 2 pontos percentuais e gerando impacto significativo para a gestão econômica.

É importante ressaltar que durante todo o período de estudo os processos de farmácia foram analisados e monitorados através do acompanhamento de profissionais qualificados em gestão da qualidade, gestão de recursos humanos, gestão de custos e financeiro e gestão de farmácia hospitalar, sendo que os resultados apresentados nesta reestruturação demonstraram ganhos como agilidade no atendimento, redução de retrabalho pelas equipes multidisciplinares, levando segurança ao paciente, bem como, garantindo um fluxo de caixa adequado no âmbito de consumos de materiais e medicamentos hospitalares.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A atuação da farmácia hospitalar deve ser pautada em processos ágeis e seguros para garantir a assistência adequada ao paciente, e é de extrema importância que os processos internos sejam reavaliados periodicamente, visto que o processo de farmácia é extremamente sensível ao perfil do paciente, média de paciente dia, consumos e giro de estoque.

A necessidade de mudanças no processo de farmácia, foi analisada pelo corpo diretivo da instituição e tornou-se um case de sucesso, visto que reduziu comprovadamente custos hospitalares, e otimizou rotinas que anteriormente poderiam impactar na assistência ao paciente. A farmácia hospitalar está construindo uma mudança significativa em todos os seus processos e protocolos, buscando sempre a excelência na assistência farmacêutica prestada ao paciente e no atendimento à equipe multidisciplinar.

REFERÊNCIAS

RIBEIRO, A.; MEDICI, A. Observatório 2024. 15. ed. [s.l: s.n.].
https://www.gov.br/ebserh/pt-br/hospitais-universitarios/regiao-sudeste/hc-ufmg/saude/metas-internacionais-de-seguranca-do-paciente/metas-internacionais-de-seguranca-do-paciente. [Acesso em: 14 jun 2024]http://sbrafh.hospedagemdesites.ws/site/public/docs/padroes.pdf Autores: CANDIDO, Elaine da Silva MATSUMOTO, Milena Yumi Silverio SHIRAYSHI, Tânia Yuriko Kushikawa GARCIA, Washington Luis REIS, Carlos Henrique Bertoni ROMÃO, Maria de Fatima Silva.

Eficiência da Parceria Público-Privada na Gestão de um Hospital no Município do Rio de Janeiro

Por: Eduardo Coriolano de Oliveira1, Marcela Coelho Antunes de Ataíde Alpino1,2, Claudia Cristina Santos Soares1,2, Liz Gomes da Silva Lutterbach1, Pollyana Gama1, Cátia Maria Bertoti1, Rodrigo Moraes1.

1 INSTITUTO DE DESENVOLVIMENTO INSTITUCIONAL E AÇÃO SOCIAL – IDEIAS, RIO DE JANEIRO, RJ
2 HOSPITAL MUNICIPAL GETÚLIO VARGAS FILHO, NITERÓI, RJ

RESUMO

A participação público-privada (PPP) na saúde brasileira representa uma importante alternativa para a melhoria dos serviços de saúde, trazendo vantagens em termos de eficiência e qualidade. No entanto, para que essas parcerias sejam bem-sucedidas, é essencial a existência de um arcabouço regulatório robusto, mecanismos eficazes de controle e uma gestão transparente dos recursos. A combinação de esforços entre os setores público e privado pode, portanto, contribuir significativamente para o fortalecimento do sistema de saúde no Brasil. Indicadores hospitalares são ferramentas essenciais para a avaliação e o monitoramento da qualidade e eficiência dos serviços prestados em instituições de saúde. Eles fornecem dados quantitativos e qualitativos que ajudam a identificar áreas de melhoria, garantir a segurança do paciente e otimizar a gestão hospitalar. Entre os principais indicadores hospitalares, podem-se destacar a taxa de mortalidade, que avalia o número de óbitos em relação ao número de pacientes atendidos; o tempo médio de permanência, que mede a duração média de internação dos pacientes; e o número de internações ocorridas ao longo de um período. Dito isso, o objetivo deste trabalho foi avaliar a eficiência da PPP em uma unidade hospitalar do município do Rio de Janeiro. Como resultado, foi possível verificar através dos dados coletados dos indicadores, que houve uma melhora na qualidade dos atendimentos após a implantação da PPP. Logo, é previsível que a estratégia de gestão compartilhada entre os setores público e privado reflete em bons resultados para a população na saúde pública.

ABSTRACT

The public-private partnerships (PPPs) in Brazilian healthcare represent an important alternative for improving healthcare services, bringing advantages in terms of efficiency and quality. However, for these partnerships to be successful, a robust regulatory framework, effective control mechanisms and transparent management of resources are essential. The combination of efforts between the public and private sectors can therefore contribute significantly to strengthening the healthcare system in Brazil. Hospital indicators are essential tools for assessing and monitoring the quality and efficiency of services provided in healthcare institutions. They provide quantitative and qualitative data that help identify areas for improvement, ensure patient safety and optimize hospital management. Among the main hospital indicators, the following stand out: mortality rate, which assesses the number of deaths in relation to the number of patients treated; average length of stay, which measures the average length of hospital stay; and the number of hospitalizations that occurred over a period of time. That said, the objective of this study was to evaluate the efficiency of the PPP in a hospital unit in the city of Rio de Janeiro. As a result, it was possible to verify through the data collected from the indicators that there was an improvement in the quality of care after the implementation of the PPP. Therefore, it is predictable that the shared management strategy between the public and private sectors reflects in good results for the population in public health.

INTRODUÇÃO

Os cuidados com a saúde representam um setor chave no desenvolvimento humano. Em todo o mundo, relatos de ineficiência e aumento de custo tem crescido, mostrando a complexidade deste setor, onde até países desenvolvidos apresentam dificuldades. Dados estimados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 20-40% dos recursos de saúde são desperdiçados devido à ineficiência dos serviços (AHMED et al., 2019; HADIAN et al., 2024). Dados da literatura mostram que a oferta dos serviços em saúde unicamente pelo setor público apresenta diversas limitações, como escassez de recursos humanos, quadros institucionais ineficientes, qualidade inadequada, entre outros. Para contornar este problema, diversos países no mundo têm recorrido à Parcerias Público-Privadas (PPP) (JOUDYIAN et al., 2021).

Como visto, garantir uma assistência de qualidade nos serviços de saúde tem se mostrado um desafio para as instituições, profissionais e gestores envolvidos. A utilização de indicadores para avaliar a qualidade do serviço possibilita às organizações estabelecer padrões e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. Mais especificamente, permite que os gestores identifiquem e avaliem os eventos que impactam os clientes e os colaboradores, determinando se os processos e resultados estão satisfatórios e atendem às necessidades e expectativas (ALMEIDA & GÓIS, 2020; GRALA et al., 2020).

Os dados em saúde, no Brasil, são acessíveis através da plataforma DATASUS. Esta é uma ferramenta extremamente útil para a tomada de decisão baseada em evidência, uma vez que através dela é possível obter inúmeros registros, buscando macro e microindicadores BRASIL, 2022).

Com isso, o objetivo deste trabalho foi avaliar a eficiência da Parceria Público-Privada em uma unidade hospitalar de baixa complexidade do município do Rio de Janeiro.

REFERENCIAL TEÓRICO

A Constituição Federal (CF) de 1988 estruturou o sistema de Saúde do Brasil sob os pilares da equidade, universalização do atendimento, descentralização política e operacional e do financiamento tripartite (BRASIL, 1988). Além disso, ficou também estabelecido à iniciativa privada atuação econômica livre, servindo como serviço suplementar às estruturas públicas. A regulamentação destas definições ocorreu em 1990, por intermédio das Leis n° 8.080 (BRASIL, 1990a), com as atribuições, competências e responsabilidades dos níveis componentes do SUS, e n° 8.142 (BRASIL, 1990b), que dispõe sobre participação social e transferências de recursos intergovernamentais no sistema.

Desde suas origens, o sistema passou por vários períodos de revisão operacional em consequência da insuficiência de recursos para custeio e investimentos. Em 1998, a Lei n° 9.637 (BRASIL, 1998) passou a regular as Organizações Sociais de Saúde (OSS), tendo como principal meio de transferência da gestão o Contrato de Gestão celebrado entre o poder público e o setor privado. A lei n° 13.019 de 2014 (BRASIL, 2014), conhecida como Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC), estabeleceu normas para parcerias entre a administração pública e as Organizações da Sociedade Civil (OSC), tendo como instrumentos jurídicos para a formalização das parcerias o Termo de Colaboração e Termo de Fomento.

Os investimentos destinados aos serviços públicos atualmente têm envolvido alguma forma de parceria regulada por acordos bilaterais entre entidades públicas e o setor privado, a estas pactuações contratuais dão-se o nome de Parceria Público-Privada (PPP). O modelo PPP envolve a adjudicação, compra ou subcontratação de serviços públicos a parceiros privados através de diferentes acordos contratuais (QUINTELHA, 2020; JOUDYIAN et al., 2021; ANDRADE & PINTO, 2022).

O incremento de PPP na saúde pública apresenta-se como uma das possibilidades de resolução dos déficits estruturais do setor, especificamente com relação à modernização da rede de hospitais vinculados ao SUS. Além disso, estas parcerias agregam como resultados esperados ao SUS a redução da necessidade de internações com a incorporação de tecnologias de média e alta complexidade ambulatoriais, aumento na oferta de leitos, se contrapondo ao sub financiamento dos Serviços em Saúde (QUINTELHA, 2020; SCHRAMM, 2023).

O modelo de operação do sistema de saúde é um caso singular, pois ao mesmo tempo em que o país oferece serviços públicos universais e gratuitos, as despesas do segmento privado são maiores que as governamentais. De acordo com Araujo e colaboradores (2021), o Brasil consome cerca de 10 % do seu Produto Interno Bruto (PIB) em saúde, sendo 4,7 % de verbas públicas e o restante do setor privado. O desafio do financiamento deve ser analisado em dois aspectos principais: insuficiência dos recursos financeiros e qualidade dos gastos. Diante dessa situação, alguns gestores públicos apostam que são necessárias alternativas à gestão pública da saúde com participação de instituições privadas na prestação dos serviços, ainda que o planejamento e a regulação permaneçam sob responsabilidade do Estado, com o objetivo de alavancar recursos e eficiência na gestão (ANDRADE & PINTO, 2022; SCHRAMM, 2023).

Atualmente, uma das principais preocupações dos sistemas de saúde ao redor do mundo é a qualidade da assistência. Controlar custos e garantir a sustentabilidade, reduzir a variabilidade na prestação de cuidados de saúde, garantir a transparência e a responsabilização, entregar resultados eficazes, seguros e centrados no paciente, garantindo sua satisfação tem sido objetos dos sistemas de saúde (CARINI, 2020).

Os indicadores hospitalares são ferramentas úteis para a avaliação da qualidade dos cuidados com a saúde. Estes indicadores podem ser classificados como estruturais, de processos e de resultados. Dentre os indicadores de resultados, pode-se destacar a taxa de ocupação hospitalar, a taxa de mortalidade, o tempo de permanência, dentre outros (DONEBADIAN, 2003; MACHADO, 2013). No Brasil, estes indicadores são descritos nas estatísticas globais das unidades e do sistema de saúde, porém, raramente são utilizados na avaliação e monitoramento dos cuidados hospitalares (MARTINS, 2010).

METODOLOGIA

Trata-se de estudo descritivo, com base em dados secundários, sobre o desempenho, através da análise de indicadores, de uma unidade hospitalar que integra o Sistema Único de Saúde (SUS) antes e após a gestão por Parceria Público-Privada.

Os dados foram coletados no Sistema de Informações Hospitalares do SUS (SIH/SUS), contido no DATASUS. Os indicadores avaliados referentes ao período 2019 a 2023 foram: número de internações anual, o tempo médio de permanência e a taxa de mortalidade.

Foram coletados dados mês a mês de cada ano separadamente e os valores demonstrados representam a média ± erro padrão utilizando one-way ANOVA múltiplas comparações e teste T-student, comparado ano a ano, com p < 0,05. Os dados estatísticos foram realizados através do programa GraphPad Prism 10 e a tabela confeccionada no programa Microsoft Excel®.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

O Hospital, objeto deste estudo, teve sua gestão plena pela administração direta até setembro de 2022. Em outubro de 2022, um termo de colaboração foi assinado entre a prefeitura e uma OSC, firmando a parceria público-privada. Os leitos compactuados foram leitos de pneumologia e infectologia. A gestão direta ficou responsável por gerir leitos de longa permanência. Por esta razão, o período de escolha foi entre 2019 e 2023, a fim de se avaliar o primeiro ano de funcionamento da unidade já sob a influência gerencial da PPP.

Como é possível observar na Tabela 1, o número de internações, por ano, entre 2019 e 2022 variou entre 165 e 221 pacientes. Já em 2023, o número de internações cresceu quase 3 vezes, atingindo 508 internações.

Como já visto, o giro de leitos é de extrema importância para o bom funcionamento do serviço de saúde, uma vez que um dos grandes desafios é atender às demandas cada vez mais crescentes. Os dados apresentados mostram que após a instalação da PPP, foi possível ofertar mais vezes os leitos à população.

Outro dado importante foi o tempo de permanência, em dias, dos pacientes. Entre 2019 e 2022 pode-se observar um tempo médio de 45 dias. Em 2020 a média foi mais elevada em decorrência do mês de abril, onde o tempo de permanência médio foi de 127 dias (dados não mostrados). No entanto, com a gestão de leitos realizada pela OSC, este indicador foi de aproximadamente 23 dias, uma redução de quase metade dos dias.

Este resultado corrobora o número de internações aumentado, uma vez que a taxa de permanência tem total correlação com a possibilidade de ofertas de novos leitos.

A taxa de mortalidade foi outro parâmetro avaliado, e como mostrado na Tabela 1 é possível observar uma redução significativa de quase 3 vezes neste indicador. Estes dados se interrelacionam uma vez que um elevado tempo de permanência de internação acarreta em uma maior incidência de óbitos.

ANOINTERNAÇÃO ANUALPERMANÊNCIA MÉDIA (DIAS)MORTALIDADE (%)
201917645,54 ± 9,647,21 ± 4,24
202016540,68 ± 7,788,62 ± 5,54
202116745,68 ± 13,984,62 ± 6,71
202222153,53 ± 24,73*5,83 ± 4,49*
202350823,40 ± 3,25****2,07 ± 2,00****

Fonte: DATASUS (SIH/SUS). * p < 0,05; **** p < 0,0001

CONCLUSÃO

Estes resultados indicam que a PPP, nesta unidade hospitalar, foi fundamental para a melhoria no serviço prestado, proporcionando à população fluminense um melhor tratamento frente às clínicas de infectologia e pneumologia. Contudo, por se tratar de um recorte específico de 3 indicadores, não é possível afirmar que indicadores estruturais, de processos e demais indicadores de resultados seguirão a mesma linha de melhorias.

REFERÊNCIA

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Impacto da Farmácia Clínica em um Hospital Filantrópico do Noroeste Paulista

Por: Taisa Barros da Silva Barão, Ana Claudia Zafani Pomin, Bianca de Fatima Gonçalves Barbosa, Daniela Gouveia Ribeiro, Danúbia Cristina Sampaio.

Votuporanga, 2024.

Impact of clinical pharmacy in a philanthropic hospital in the northwest of São Paulo

By: Taisa Barros da Silva Barão1, Ana Claudia Zafani Pomin2, Bianca de Fatima Gonçalves Barbosa2, Daniela Gouveia Ribeiro2, Danúbio Cristina Sampaio2.

Resumo

A farmácia clínica é uma das áreas da profissão farmacêutica voltada à ciência e a prática do uso racional de medicamentos, de forma que cabe ao farmacêutico clínico, a realização do acompanhamento farmacoterapêutico para otimização da terapia medicamentosa. Esse estudo tem como objetivo a análise de forma qualitativa e quantitativa das avaliações de prescrições, assim como as intervenções farmacêuticas realizadas pelo serviço de farmácia clínica de um hospital do noroeste paulista, apresentando taxas de aceitação pela equipe e estratificação por tipo de intervenção, assim como o impacto na farmacoeconomia hospitalar e na segurança do paciente. Trata-se de um estudo transversal seccional realizado no ano de 2023, conduzido pelos farmacêuticos clínicos da instituição. Todos os pacientes acompanhados possuíam uma ficha física e após avaliação farmacêutica diária, todos os dados condizentes eram lançados em planilha excel, que possibilitava a geração de Dashboard, a qual permitiu a apresentação dos dados mensais de forma clara, além da geração de indicadores de eficácia do serviço. Foram avaliadas 4257 prescrições, sendo realizadas 1278 intervenções farmacêuticas gerais, marcando farmacoecomonia no valor de R$ 6048,18 para o ano. O percentual de aceitação pela equipe foi de 75%. Prevaleceram as intervenções para a especialidade intensivista, sendo 854. Com foco no gerenciamento de antimicrobianos, foram 341 intervenções específicas, obteve-se valor considerável farmacoeconomico, R$ 15904,00. O trabalho evidenciou taxa de aceitação importante, principalmente quando comparado com outros estudos, além da economia financeira considerável para a instituição, sem comprometer a segurança dos pacientes atendidos.

Palavras-chave: Farmácia Clínica; Acompanhamento Farmacoterapêutico; Farmacoeconomia; Intervenções Farmacêuticas.

Abstract

Clinical Pharmacy is one of the areas of the pharmaceutical profession focused on the science and practice of the rational use of medicines, so the Clinical Pharmacist is responsible for carrying out pharmacotherapeutic monitoring to optimize drug therapy. This study aims to qualitatively and quantitatively analyze prescription evaluations, as well as pharmaceutical interventions carried out by the clinical pharmacy service of a hospital in the northwest of São Paulo, presenting acceptance rates by the team and stratification by type of intervention, as well as the impact on hospital pharmacoeconomics and patient safety. This is a cross-sectional study carried out in 2023, conducted by the institution’s clinical pharmacists. All patients monitored had a physical form and after daily pharmaceutical assessment, all relevant data was entered into an Excel spreadsheet, which enabled the generation of a Dashboard, which allowed the presentation of monthly data clearly, in addition to the generation of effectiveness indicators. of the service. 4257 prescriptions were evaluated, with 1278 general pharmaceutical interventions carried out, marking a pharmacoeconomy worth R$ 6048.18 for the year. The percentage of acceptance by the team was 75%. Interventions for the intensive care specialty prevailed, 854. With a focus on antimicrobial management, there were 341 specific interventions, obtaining a considerable pharmacoeconomic value, R$ 15,904.00. The work showed an important acceptance rate, especially when compared to other studies, in addition to considerable financial savings for the institution, without compromising the safety of the patients treated.

Keywords: Clinical Pharmacy; Pharmacotherapeutic monitoring; Pharmacoeconomics; Pharmaceutical Interventions.

1 Santa Casa de Misericórdia de Votuporanga. Votuporanga, (SP) São Paulo, Brasil, Coordenadora de Farmácia Clínica. E-mail: [email protected].

2 Santa Casa de Misericórdia de Votuporanga. Votuporanga, (SP) São Paulo, Brasil, Farmacêutica Clínica. E-mail: [email protected].

INTRODUÇÃO

A realização do acompanhamento farmacoterapêutico é uma atividade do profissional farmacêutico. A farmácia clínica é uma das áreas da profissão voltada à ciência e a prática do uso racional de medicamentos, de forma que cabe ao farmacêutico clínico, amplo conhecimento e capacidade de julgamento para a otimização da farmacoterapia dos pacientes (CRF-SP, 2024).

As atribuições clínicas do farmacêutico são regulamentadas pela RESOLUÇÃO Nº 585 DE 29 DE AGOSTO DE 2013 do Conselho Federal de Farmácia. Dessa forma, essas atividades podem ser desenvolvidas pelo profissional em diferentes instituições de saúde, incluindo hospitais, local onde o trabalho ganha destaque, com cuidado centrado no paciente.

A farmácia clínica realizada em ambiente hospitalar pode agregar diversos impactos positivos para a instituição. O farmacêutico clínico está apto a identificar sinais e sintomas, realizar acompanhamento farmacoterapêutico, orientar o paciente e acompanhante, podendo atuar em conjunto à equipe multiprofissional para a garantia da efetividade do tratamento (CRF-SP, 2024).

A análise de prescrição farmacêutica pode identificar problemas relacionados a medicamentos (PRMs) possibilitando atuação preventiva na terapia medicamentosa, contribuindo para a segurança do paciente (CRUZ; BATISTA; MEURER, 2019). Os erros de prescrição se caracterizam como um tipo de falha de medicação que pode envolver tanto a redação da linha de cuidados, quanto o processo de decisão terapêutica (ISMP- Brasil, 2021). Os PRMs são potencialmente danosos a saúde do paciente, podendo representar um maior custo de serviços ao aumentar o tempo de internação (CRUZ; BATISTA; MEURER, 2019).

Os farmacêuticos clínicos desempenham funções que buscam otimização da terapia medicamentosa, com foco especial na dosagem, monitoramento, detecção de reações adversas a medicamentos e farmacoeconomia, a fim de melhorar os resultados de saúde. O trabalho desse profissional é determinado pelas necessidades e recursos disponíveis na instituição, assim é dependente das rotinas implementadas para o acompanhamento farmacoterapêutico.

A farmácia clínica encontra-se em processo de crescimento, sendo que está clara a necessidade de incluir o profissional farmacêutico nas equipes de saúde, realizando intervenções farmacêuticas para a segurança do paciente e qualidade do cuidado (CRUZ; BATISTA; MEURER, 2019).

O mnemônico FASTHUG-MAIDENS avalia diversos aspectos da terapia e auxilia o farmacêutico clínico na sua validação de prescrição. A ferramenta avalia alimentação, analgesia, sedação, profilaxia de tromboembolismo, delirium, profilaxia de úlcera de estresse, controle da glicemia, conciliação de medicamentos, antimicrobianos, indicação dos medicamentos, doses, eletrólitos, hematologia e exames laboratoriais, ausência de interações medicamentosas, alergias, duplicidades ou reações adversas e datas de parada (LIMA et al., 2021). O profissional pode trabalhar na avaliação da prescrição de antimicrobianos, em que o uso incorreto exerce papel crítico na seleção de micro-organismos resistentes e do risco de superinfecções, além dos custos envolvidos, de forma que é possível evidenciar a farmacoeconomia além da contribuição com o sucesso da terapia.

Devido a maior complexidade das prescrições, encontra-se maior número de PRMs nas UTIs (CRUZ; BATISTA; MEURER, 2019). A unidade de terapia intensiva é considerada um ambiente complexo, que envolve alta tecnologia, e expõe o paciente a um maior risco de eventos adversos. Dessa forma, o profissional farmacêutico clínico é fundamental para garantia da qualidade e segurança da terapia (CFF, 2019).

Os farmacêuticos clínicos que atuam em unidades de terapia intensiva são especialistas que contribuem positivamente no cuidado aos pacientes críticos, focando na avaliação clínica e na farmacoterapia segura e racional dos pacientes, monitorando a prescrição de antimicrobianos, medicamentos vasoativos, eletrólitos, bloqueadores neuromusculares, sedação e analgesia. A resolução 675/2019 regula as atribuições do profissional em unidades de terapia intensiva (LIMA et al., 2021).

Assim, esse estudo tem como objetivo analisar de forma qualitativa e quantitativa as avaliações de prescrições, assim como as intervenções farmacêuticas realizadas pelo serviço de farmácia clínica de um hospital do noroeste paulista, apresentando taxas de aceitação pela equipe e estratificação por tipo de intervenção, assim como o impacto na farmacoeconomia hospitalar e na segurança do paciente.

METODOLOGIA

Trata-se de um estudo transversal seccional realizado no ano de 2023, conduzido pelos farmacêuticos clínicos de um hospital do noroeste paulista. O hospital conta com 214 leitos sendo 20 deles de UTI adulto e 10 de UTI neonatal. São duas unidades de terapia intensiva adulto, uma delas clínica e outra cirúrgica. Para análise e cálculo dos dados foram considerados todos os pacientes avaliados pelos farmacêuticos clínicos no período.

Para possibilitar a coleta das informações, todos os pacientes acompanhados possuíam uma ficha física, composta por itens de preenchimento obrigatório, os quais se caracterizavam como uma adaptação do mnemônico FASTHUG-MAIDENS. Após avaliação farmacêutica diária, todos os dados condizentes eram lançadas em planilha excel composta por diferentes colunas (data, nome do paciente, número de identificação no sistema, setor da internação, intervenção realizada, tipo de intervenção, farmacoeconomia, aceite da intervenção, prescritor responsável, especialidade, farmacêutico responsável pela avaliação, classificação de risco e CID).

A avaliação de prescrições foi realizada por 5 farmacêuticos clínicos, sendo 1 deles com carga horária administrativa (segunda à sexta-feira – 07:00-17:18h) e 4 com carga horária de 12h (07:00-19:00h). O trabalho se estendia aos fins de semana, porém com equipe reduzida devido as folgas dos colaboradores. O trabalho diário dos farmacêuticos clínicos se baseou nas bases de dados DRUG, MEDSCAPE, HANDBOOK, GUIA SANFORD, NEOFAX e bulas do profissional da saúde.

Com o preenchimento de ficha clínica padronizada na instituição, as análises clínicas se fundamentaram na avaliação da hipótese diagnóstica, comorbidades, histórico, alergias, necessidade de reconciliação e validação medicamentosa, capacidade respiratória, necessidade de sedação e curarização, uso de drogas vasoativas, antibioticoterapia, profilaxia de tromboembolismo e profilaxia gástrica, interações medicamentosas além de exames pertinentes a clínica do paciente.

A equipe de farmacêuticos clínicos realizou visitas clínicas diárias e multidisciplinares (duas vezes na semana) aos pacientes em cuidado intensivo adulto. Diariamente a equipe avaliava as prescrições de todos os pacientes das unidades de terapia intensiva adulto, assim como mantinha acompanhamento desses pacientes nas enfermarias, até a alta hospitalar, quando realizaram também orientações farmacêuticas com entrega de panfleto educativo. Além disso, antimicrobianos específicos (Cefazolina, Cefuroxima, Meropenem, Polimixina, Cefepime, Ciprofloxacino, Moxifloxacino, Piperacilina+Tazobactam) tiveram acompanhamento diário de suas dispensações para todos os pacientes da instituição, possibilitando intervenções relacionadas a ajustes de dose e tempo de tratamento. Os antimicrobianos de avaliação diária permitiram a realização de auditorias dos protocolos SEPSE abertos pelos prescritores na instituição; assim a equipe de farmacêuticos clínicos, teve autonomia para notificar falhas do protocolo à infectologista do SCIH (Serviço de Controle de Infecção Hospitalar).

O risco da farmacoterapia foi obtido através de questões formuladas pela equipe de farmacêuticos clínicos, para realização da classificação do risco envolvido. O Escore utilizado, envolvia número de itens prescritos, número de itens endovenosos prescritos, número de medicamentos potencialmente perigosos necessários, tipo de nutrição empregada; idade do paciente; presença de disfunção renal ou hepática; imunossupressão; prescrição de alta responsável (demandas para equipe multiprofissional). Todos os pacientes da UTI foram classificados como alto risco, de forma que o escore foi utilizado apenas nas enfermarias; pacientes de baixo risco, receberam alta da equipe de farmácia clínica.

Com auxílio do setor de controladoria da instituição, foi desenvolvida uma Dashboard a partir da planilha de excel preenchida diariamente pelos farmacêuticos clínicos. A Dashboard permitiu a apresentação dos dados mensais de forma clara, além da geração de indicadores de eficácia do serviço.

Considerando que a planilha de excel foi alimentada com o valor economizado (quando aplicável) sobre cada intervenção farmacêutica, foi possível obter valores farmacoeconomicos para cada mês analisado, assim como obter o ticket médio por intervenção.

A Dashboard permitiu a classificação das intervenções por tipo de unidade de internação (estratificando UTI e Enfermaria), risco associado a farmacoterapia gerado a partir de escore desenvolvido pela equipe (Alto, Moderado e Baixo) além da estratificação das intervenções por especialidade médica.

As intervenções farmacêuticas foram feitas presencialmente e via telefone como sugestões à equipe, após análise das prescrições, sendo registradas, posteriormente, nas evoluções farmacêuticas diárias de cada paciente (prontuário eletrônico) e disponíveis para todos os membros da equipe multidisciplinar. Dessa forma, as sugestões foram classificadas como aceitas, não aceitas e aceitas parcialmente; por meio da Dashboard foi possível avaliar a taxa de aceitação e apresentar os resultados a diretoria técnica da instituição.

RESULTADOS

No período de estudo, foram avaliadas 4257 prescrições, sendo realizadas 1278 intervenções farmacêuticas gerais. O percentual de aceitação pela equipe foi de 75%; Foram 958 intervenções aceitas, 190 negadas e 130 aceitas parcialmente. A partir do Gráfico 1 é possível realizar a análise geral.

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Gráfico 1

Considerando o perfil de pacientes atendidos pelo Serviço de farmácia clínica na Instituição, fica clara a prevalência da especialidade Intensivista dentre as intervenções realizadas durante o ano, foram 854, conforme ilustra o Gráfico 2.

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Gráfico 2

Estratificando por CIDs das respectivas intervenções, fica evidente a predominância do Infarto Agudo do Miocárdio, seguido pelo Acidente Vascular Cerebral Não Especificado (Gráfico 3). Ambos os diagnósticos se relacionam a protocolos gerenciados na instituição e acompanhados pelos farmacêuticos clínicos.

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Gráfico 3

O serviço realizou trabalho voltado a farmacoeconomia, de forma que para as 1278 intervenções gerais, registrou o valor de R$ 6048,18 para o ano, assim obteve-se ticket médio de R$ 4,73.

Com foco no gerenciamento de Antimicrobianos utilizados como antibioticoprofilaxia e aqueles de amplo espectro, utilizados nos protocolos SEPSE da instituição, obteve-se valor considerável farmacoeconomico no ano, R$ 15904,00. O valor foi obtido a partir de 341 intervenções específicas dos antimicrobianos em questão, gerando um ticket médio de R$ 46,64. O Gráfico 4 estratifica as intervenções específicas por antimicrobiano, onde é possível verificar 68 intervenções relacionadas apenas a Cefazolina, principal antimicrobiano utilizado para antibioticoprofilaxia cirúrgica.

O Gráfico 5 permite a avaliação das especialidades contempladas com as intervenções relacionadas aos antimicrobianos específicos definidos pela equipe de farmacêuticos clínicos; prevalecem as intervenções da Clínica Geral por não haver priorização por criticidade e quadro clínico e sim pela dispensação do medicamento em específico.

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Gráfico 4

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Gráfico 5

A partir do mês de dezembro a equipe passou a estratificar as intervenções por tipo, de forma que se evidencia prevalência dos ajustes relacionados à dose, no mês analisado. O mês de dezembro contou com 121 intervenções, sendo 31 relacionadas a dose (ajustes renais e hepáticos além de ajustes de dose gerais), dessa forma 26% das intervenções do mês correspondem a essa classificação. O Gráfico 6 evidencia todos os tipos de intervenções, trabalhadas no estudo.

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Gráfico 6

DISCUSSÃO

Trabalhos cooperativos e multidisciplinares nos sistemas de saúde, são cada vez mais necessários e nesse sentido, o farmacêutico clínico é primordial no acompanhamento da farmacoterapia, para segurança do paciente (JUNIOR et al., 2021). Realizando uma comparação entre as prescrições avaliadas no estudo e o número de intervenções farmacêuticas geradas, percebe-se que 30% das prescrições eram passíveis de otimização pelo farmacêutico clínico. Todo o trabalho da equipe foi registrado em prontuário eletrônico, sendo obtidas 7272 evoluções no período analisado, sendo elas de intervenções pontuais ou aquelas provenientes da avaliação diária dos pacientes acompanhados.

No período analisado, a aceitação obtida (75%) para as sugestões da farmácia clínica mostra-se próxima a outros estudos. Vale ressaltar, que a análise crítica das negativas não demostra um padrão único, se caracterizando por flutuarem entre os diferentes tipos de sugestões realizadas pelos profissionais. Um estudo de um hospital universitário, demostrou em sua análise do serviço de farmácia clínica, taxa de aceitação de 70% para suas intervenções (CRUZ; BATISTA; MEURER, 2019).

A classe terapêutica mais trabalhada pelos farmacêuticos clínicos foi a dos antimicrobianos, de forma que a equipe consolidou parceria com a infectologista responsável pelo SCIH da instituição. As atividades buscaram também a auditoria diária dos antimicrobianos utilizados em casos de SEPSE em infecções relacionadas a assistência à saúde. A sepse é um estado em que pode acontecer incapacidade do sistema circulatório em fornecer fluxo sanguíneo apropriado para às necessidades metabólicas dos tecidos e órgãos vitais. (EINSTEIN, 2020). O Stewardship de antimicrobianos é um conjunto de táticas para o gerenciamento e uso racional de antibióticos; se caracteriza como estratégias para enfrentar a atual crise mundial de resistência bacteriana (PEREIRA et al., 2022).

A antibioticoprofilaxia tem sido utilizada por longos períodos, ou ainda, são prescritos antimicrobianos de amplo espectro, o que não oferece benefício suplementar quando não há indicação (PEREIRA et al., 2020). Assim, no presente estudo os ajustes de dose para função renal e tempo da terapia empregada foram alvo das intervenções relacionadas aos antimicrobianos Cefazolina e Cefuroxima, uma vez que se caracterizam como antibioticoprofilaxia padrão na instituição.

Foi evidenciado no mês de dezembro do estudo, prevalência das intervenções relacionadas a dose, de forma que uma análise crítica das mesmas, permite a percepção de falhas nas prescrições de pacientes nefropatas. LIMA et al. (2021), em seu estudo de quatro meses, evidenciou 12,2% das suas intervenções relacionadas a dose, de forma que a prevalência foi para a introdução de medicamentos em prescrição 25,2%. O serviço de farmácia da Universidade Federal de Juiz de Fora, evidenciou a prevalência de intervenções relacionadas a correção e preparo e/ou administração, as quais corresponderam a 28,7% das intervenções do estudo (CRUZ; BATISTA; MEURER, 2019).

No ano de 2023, obteve-se a partir das 1626 intervenções a economia financeira de R$ 21952,18, conforme relatado anteriormente. Seção de análise econômica, a farmacoeconomia, é uma área da saúde a qual contempla segurança, qualidade, eficácia, eficiência e diversos processos com o aspecto de custo econômico. (SILVA et al., 2022). A farmacoeconomia busca opções efetivas e pode contribuir na distribuição dos recursos, sem esquecer a segurança do paciente. MEIRELES et al. (2023), em seu estudo com foco nas intervenções farmacêuticas em UTI, obteve para o trimestre avaliado, economia de R$ 19.225,26; caracterizou-se por ser um estudo onde foram realizadas 696 intervenções farmacêuticas das quais 71,6% foram acatadas.

CONCLUSÃO

Através da farmácia clínica, o profissional farmacêutico desenvolve o trabalho de realização de ajustes e sugestões, por meio da criação de um ambiente favorável e melhoria na terapia medicamentosa empregada em parceria com a equipe multiprofissional.

O estudo evidenciou taxa de aceitação considerável, principalmente quando comparado com outros trabalhos. Demonstrou-se economia financeira importante para a instituição, especialmente quando focado no acompanhamento farmacoterapêutico dos antimicrobianos de amplo espectro, sem comprometer a segurança dos pacientes.

Grande parte das prescrições médicas são passíveis de intervenção farmacêutica ou otimização. A prática farmacêutica no cuidado está em crescimento constante, de forma que cabem análises futuras que comparem a evolução das taxas de aceitação de intervenções pela equipe médica e interdisciplinar, assim como uma análise prolongada da estratificação das intervenções por tipos, avaliando ainda o aspecto farmacoeconômico.

REFERÊNCIAS

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JUNIOR. L. A. B. A. et al. Importância da farmácia clínica para a identificação e resolução de problemas relacionados a medicamentos (PRM). Revista Saúde em Foco v.13, 2021. Disponível em: https://portal.unisepe.com.br/unifia/wp-content/uploads/sites/10001/2021/01/IMPORT%C3%82NCIA-DA-FARM%C3%81CIA-CL%C3%8DNICA-PARA-A-IDENTIFICA%C3%87%C3%83O-E-RESOLU%C3%87%C3%83O-DE-PROBLEMAS-RELACIONADOS-A-MEDICAMENTOS-PRM-9-%C3%A0-20.pdf Acesso em: 17 mai. 2024.
MEIRELES, S. S. G. et al. Impactos farmacoeconômicos das intervenções farmacêuticas realizadas em uma Unidade de Terapia Intensiva de um hospital público de Salvador. Jornal de Assistência Farmacêutica e Farmacoeconomia, 8 (s. 2). DOI 10.22563/2525-7323.2023.v1.s2.p.51. Disponível em: https://ojs.jaff.org.br/ojs/index.php/jaff/article/view/718 Acesso em: 08 mai. 2024.
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CFF – Conselho Federal de Farmácia. Resolução CFF nº 675/2019. Regulamenta as atribuições do farmacêutico clínico em unidades de terapia intensiva, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ISSN 1677-7042, n. 225, p. 128, 21 nov. 2019. Disponível em: https://pesquisa.in.gov.br/imprensa/jsp/visualiza/index.jsp?data=21/11/2019&jornal=515&pagina=128&totalArquivos=133 Acesso em: 10 abr. 2024.
CRF-SP – Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo. Informativo Farmácia Clínica. São Paulo, SP: CRF, 2024. Disponível em: http://portal.crfsp.org.br/comissoesassessoras/comissoes/2515-comissao-de-farmacia-clinica.html#:~:text=Farm%C3%A1cia%20Cl%C3%ADnica%20%C3%A9%20uma%20%C3%A1rea,bem%2Destar%20e%20prevenir%20doen%C3%A7as Acesso em: 02 mai. 2024.
CRUZ, L. T.; BATISTA, P. N.; MEURER, I. R. Análise do serviço de farmácia clínica em um hospital universitário. HU Rev. 2019; 45(4):408-14. DOI 10.34019/1982-8047.2019.v45.27553. Disponível em: https://periodicos.ufjf.br/index.php/hurevista/article/view/27553 Acesso em 19 abr. 2024.
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A Implantação do Gerenciamento de Antimicrobianos Sterwardship como Atividade Profissional do Farmacêutico Clínico em Infectologia

Por: Eduardo Atsushi Yonamine, Pâmela Pinheiro Prates, Claudinei Alves Santana

Artigo para conclusão de curso apresentado ao Senac, Unidade Tiradentes, como exigência parcial para obtenção do título de “Especialista em Farmácia Clínica e Hospitalar”.

São Paulo – SP, 2021.

Este artigo será submetido a avaliação da revista THE BRAZILIAN JOURNAL OF INFECTIOUS DISEASES. Publicação oficial da Sociedade Brasileira de Doenças Infecciosas.

RESUMO

Antimicrobial Stewardship Program (ASP) se trata de um gerenciamento de uso de antimicrobianos que tem sido uma estratégia chave para a superar a resistência bacteriana, tal programa envolve um trabalho multidisciplinar, seleção dos antimicrobianos e um tratamento com mínimo impacto para o paciente em relação a efeitos adversos e infecção hospitalar. Para a implementação do ASP na instituição alguns passos podem ser seguidos para alinhar estratégias e peculiaridades de cada hospital, uma vez que cada instituição tem um perfil microbiológico e epidemiológico diferente. Algumas intervenções no tratamento do paciente podem ser realizadas para melhorar o uso racional de antimicrobianos, dentre eles: Formulário de restrição e pré- autorização dos antimicrobianos, auditorias, combinação de antimicrobianos, descalonamento, terapia sequencial e otimização da dose. O programa deve contar com o apoio da alta gestão e o suporte do laboratório de microbiologia e TI. A educação é uma peça chave no programa, principalmente em relação a adesão do programa no momento da prescrição. Podemos mensurar o progresso do programa através dos indicadores, que têm o objetivo de demonstrar se as atividades propostas estão sendo bem executadas, ou ainda se os objetivos propostos foram alcançados. E por fim, a redução de custos com a implementação do ASP é incontestável, uma vez que o consumo de antimicrobianos serão minimizados como consequência do uso racional dos antimicrobianos.

Palavras–chave: 1. Stewardship Antimicrobial; 2. Gerenciamento de antimicrobianos; 3. Resistência bacteriana;

ABSTRACT

Antimicrobial Stewardship Program (ASP) is an antimicrobial use management that has been a key strategy for overcoming bacterial resistance, such a program involves multidisciplinary work, selection of antimicrobials and treatment with minimal impact on the patient in relation to adverse effects and nosocomial infection. For the implementation of ASP in the institution, some steps can be taken to align strategies and peculiarities of each hospital, since each institution has a different microbiological and epidemiological profile. Some interventions in the treatment of the patient can be carried out to improve the rational use of antimicrobials, among them: Form of restriction and pre-authorization of antimicrobials, audits, combination of antimicrobials, de-escalation, sequential therapy and dose optimization. The program must have the support of senior management and the support of the microbiology laboratory and TI. Education is a key part of the program, especially in relation to the adhesion of the program at the time of prescription. We can measure the progress of the program through the indicators, has tha goal to demonstrate whether the proposed activities are being carried out well, or whether the proposed objectives have been achieved. And finally, the cost reduction with the implementation of ASP is undeniable, since the consumption of antimicrobials will be minimized as a consequence of the rational use of antimicrobials.

Keywords: 1. Stewardship Antimicrobial; 2. Antimicrobial program; 3. Bacterial resistance.

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento de novas drogas antimicrobianas esteve em expansão desde 1940 e mesmo no início do uso de antimicrobianos já havia resistência bacteriana, tanto que foram introduzidas 14 novas classes de antibióticos entre 1935 e 2003. No entanto, este rápido desenvolvimento associado ao uso excessivo veio com um custo: a resistência antimicrobiana em âmbito hospitalar (CABRAL,2018).
A antibioticoterapia hospitalar tem função profilática, ou seja, para prevenir infecções por um agente conhecido ou altamente suspeito, ou ainda em pacientes que tenham risco de adquiri-las. Geralmente são feitos em dose única ou podem se estender no máximo por até 48 horas. Outra aplicação da antibioticoterapia é em situações que em o processo infeccioso já está estabelecido, o tratamento pode ser empírico ou baseado em um antibiograma (FERRAZ, 2002).


Uso da antibioticoterapia profilática deve ser baseada na evidência de benefício ao paciente versus possíveis eventos adversos, pois o uso inadequado do antibiótico aumenta o índice de infecção e resistência bacteriana. Além disso, no uso curativo também o índice de resistência bacteriana é exponencial devido a associações não embasadas na literatura, trocas frequentes de antimicrobianos, dose, posologia e tempo de tratamento inadequado (VIEIRA,2017).


Diante dessa situação, em 1993 o Ministério da Saúde (MS) estabeleceu a obrigatoriedade da criação e padronização da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) nos hospitais brasileiros, para desenvolvimento de ações e prevenções e controle de infecções hospitalares. A Portaria 2616 / 98 do MS estabelece que a CCIH seja composta por representantes das áreas médica, de enfermagem, farmácia, laboratório e administração. Atribui-se a CCIH propor medidas administrativas coerentes e oportunas, ações preventivas e de controle, identificar causas, evitar ou controlar surtos, controlar procedimentos agressivos e/ou imunossupressivos, aplicar racionalmente técnicas de limpeza, desinfecção, esterilização, antibioticoprofilaxia e antibioticoterapia, ministrar treinamentos, promover cursos, desenvolver rotinas e protocolos (LOPES,2003).


O farmacêutico como componente da CCIH é o profissional capacitado para avaliar as prescrições hospitalares, propor o uso racional dos antibióticos, oferecer informações sobre a utilização dos medicamentos, estimular a terapia sequencial e elaborar relatórios de consumo dos antimicrobianos. Também deverá elaborar juntamente com uma equipe multidisciplinar o Guia Farmacêutico, a fim de padronizar os antimicrobianos utilizados no hospital (VASCONCELOS,2015).


O Antimicrobial Stewardship Program (ASP) não possui uma tradução específica para língua portuguesa, porém se trata de um gerenciamento de uso de antimicrobianos que tem sido uma estratégia chave para a superar a resistência bacteriana (DYAR,2007).
O ASP tem como objetivo a segurança do paciente que engloba prescrições desnecessárias, tempo de internação, prevenção de infecções hospitalares e efeitos adversos; Diminuir a resistência bacteriana, onde prevenir infecções e melhorar as prescrições de antibióticos podem salvar 37.000 vidas de infeções resistentes a antibióticos em 5 anos; E por fim a diminuição de custos, o programa tem demostrado uma economia de anual de U$200.000 a U$400.000 um hospitais e outras unidades de saúde ( NATHWANI,2013).
Há oitos passos para a implementação do ASP, são eles: avaliar as motivações, garantir responsabilidade e liderança, compor uma estrutura e organização, definir prioridades e mensurar os progressos, identificar intervenções efetivas para seu setor, identificar as principais medidas para melhoria, educação, treinamento e educação. Sendo assim, este artigo tem como objetivo apresentar as etapas de implantação do sistema de gerenciamento Stewardship na área hospitalar descrevendo suas vantagens na gestão dos antimicrobianos, bem como o farmacêutico clínico atua em todo o processo (NATHWANI,2013).25

MATERIAIS E MÉTODOS

Para atingir os objetivos propostos foi realizada uma revisão da literatura científica através dos bancos de dados: Scielo, Science Direct e Pubmed. A escolha dos artigos teve como critério publicações no período de 2003 a 2019 nos idiomas inglês e português. As palavras chaves utilizadas foram selecionadas conforme os Descritores em Ciência da Saúde, sendo eles: Antimicrobial Stewardship, manejo de antimicrobianos, programas de otimização do uso de antimicrobianos e resistência bacteriana.

RESULTADOS

Com base nos métodos utilizados foram analisados 45 artigos científicos, sendo excluídos 19, incluindo assim 26 artigos para elaboração desta revisão. O critério de exclusão foi ano da publicação inferior a 2001, ausência de informações a serem extraídas, ou ainda informações redundantes.

DISCUSSÃO

O Gerenciamento de antimicrobiano conhecido como Antimicrobial Stewardship Program é considerado umas das estratégias elementares para o controle da resistência bacteriana. Tal gerenciamento envolve um trabalho multidisciplinar, seleção dos antimicrobianos e um tratamento com mínimo impacto para o paciente em relação a efeitos adversos e infecção hospitalar (NATHWANI, 2013).

O termo Stewardship antimicrobial é relativamente novo, onde o programa foi desenvolvido e implementado em muitos países da Europa e nos Estados Unidos durante os anos de 1990 a 2000, por muitas das vezes liderados por farmacêuticos junto a especialistas de infectologia. Desde então, o termo Stewardship antimicrobial é encontrado em um número crescente e cada vez mais diversificado em contextos no manejo de antimicrobianos em hospitais (DYAR, 2017).

Para a implementação do Stewardship antimicrobial na instituição alguns passos podem ser seguidos para alinhar estratégias e peculiaridades de cada hospital, uma vez que cada instituição tem um perfil microbiológico e epidemiológico diferente (DELLIT,2007).Analisar motivações e planejamento.

Analisar motivações e planejamento

Primeiramente, é necessário analisar a atual situação e quais os problemas a serem resolvidos. Nesse momento da implementação podemos verificar Guidelines para nortear os primeiros passos, lembrando a necessidade de adaptar à realidade da instituição (NATHWANI, 2013).

Traçar um perfil epidemiológico e microbiológico atribuirá uma visão mais ampla da atual situação da instituição. Para definir o perfil epidemiológico pode-se realizar o levantamento das principais infecções tratadas no hospital quanto a sua etiologia, populações especificas levando em conta o setor de internação. Já para o perfil microbiológico é necessário a avaliação dos principais microrganismos associados a infecções tratadas na instituição, tal qual sua sensibilidade (BRASIL, 2017).

Outro ponto importante é quantificar resultados atuais e metas futuras, uma forma de analisar tal progresso é através de indicadores, como por exemplo, mensurar a quantidade e qualidade do uso de antibióticos (NATHWANI, 2013).

Equipe do programa stewardship e o apoio administrativo

O programa deve conter uma equipe composta por um médico infectologista, farmacêutico clínico (com treinamento em antimicrobianos); um microbiologista clínico para que possa cuidar da parte de dados epidemiológicos e resistência bacteriana e um membro da equipe de T.I. para dar suporte na parte do sistema. É necessário também que faça parte desse time um profissional do CCIH por se tratar de um objetivo em comum a redução da resistência bacteriana. É de suma importância que os objetivos estejam bem alinhados entre essas equipes. (BRASIL, 2017).

Para que o programa se estruture bem na instituição é necessário que haja um apoio da alta gestão e que os membros envolvidos denotam credibilidade, segurança nas ações e liderança, pois precisam convencer os gestores e prescritores sobre a importância e valor agregado do programa na instituição, além de aplicar treinamentos para os colaboradores (DELLIT, 2007).

Estrutura e organização
A infraestrutura e organização da instituição refletirá na estrutura do programa Stewardship, de qual forma será organizado, financiado e monitorado (CUNHA,2018).
A disponibilidade de tempo da equipe para atividades relacionadas a gestão, educação e indicadores/monitoramento do uso dos antimicrobianos devem estar bem estabelecidos nessa etapa (DYAR,2007).
Outro ponto que interferirá na estrutura do programa é a política de qualidade e segurança do paciente. A partir do momento que estes princípios estejam bem estabelecidos os colaboradores terão maior aceitabilidade e adesão ao programa por estarem habituados com os princípios de segurança do paciente, que é um dos objetivos do Stewardship (DELLIT,2007)
Há necessidade de clareza quanto a parte estrutural das atividades desenvolvidas por cada colaborador, como descrito na Figura1. (NATHWANI,2013).

Figura 1. Modelo de uma estrutura hospitalar para prescrição de antimicrobianos

Descrição da imagem

Adaptado de NATHWANI, 2013.

Estratégias para implementação

É importante que a adesão ao programa seja efetiva, e para que isso aconteça as atividades descritas a seguir devem ser implantadas aos poucos respeitando a estrutura da instituição e que as estratégias estejam bem estabelecidas (BRASIL, 2017).

Formulário de restrição e pré-autorização dos antimicrobianos

Geralmente a CCIH junto ao comitê de farmácia e terapêutica delimitam o uso de alguns antimicrobianos através da autorização de antimicrobianos por formulário, ou ainda a necessidade de justificativa do uso na prescrição (DELLIT, 2007).

A escolha desses antimicrobianos será baseado em sua eficácia terapêutica, toxicidade, custo, além de evitar a duplicidade de uso de antimicrobianos sem benefício adicional ao tratamento (DELLIT, 2007).

O intuito dessa restrição é ter um maior controle sobre o uso de antimicrobianos e ser uma influência educacional para os prescritores no momento que a solicitação é feita. Uma desvantagem dessa estratégia para os prescritores é redução de autonomia na tomada de decisões clínicas no momento da prescrição, o que pode causar uma resistência no início da implementação do programa. Por isso é importante que a equipe do Stewardship esteja disponível para eventuais consultas, principalmente nesse primeiro momento de adaptação (DREW, 2009).

Auditorias e feedbacks

O processo de auditoria ocorrerá após a prescrição de antimicrobianos e pode ser realizada por um médico infectologista ou farmacêutico especialista em antimicrobianos. Tal processo compreende em realizar intervenções, a fim de conceder ao prescritor um feedback direto e oportuno no momento da prescrição ou diagnóstico laboratorial e também fornecer uma oportunidade de educação à equipe clínica referente as prescrições (DELLIT, 2007).

Há uma importância significativa nesse processo ainda que seja feita de forma gradual ou em instituições com pouca infraestrutura, como por exemplo o caso de um pequeno hospital comunitário de leito que disponibilizava um médico infectologista e um farmacêutico clínico três dias por semana para avaliar os pacientes com múltiplos antimicrobianos, tratamento prolongado ou tratamento alto custo. As intervenções resultaram em uma redução de custo de 19% nas despesas de antimicrobianos resultando em uma economia anual estimada em U$177.000 (DELLIT, 2007). As intervenções podem incluir:

  • Orientação de uso apropriado;
  • Indicação do antimicrobiano;
  • Via de administração (IV vs oral);
  • Constância do tratamento;
  • Probabilidade de infecção contínua ou não;
  • Interpretação dos antibiogramas com a possibilidade de descalonamento ou interrupção do tratamento;
  • Duração do tratamento (NATHWANI, 2013).

Combinação do antimicrobianos

A estratégia de combinação de antimicrobianos é indicada em casos mais difíceis, como por exemplo o tratamento de Pseudomonas aeruginosa, Acinetobacter sp e Enterobacteraeci ae multirresistente. A intenção da combinação de antimicrobianos é aumentar o espectro, melhoria da atividade/sinergia do antimicrobiano e suprimir o surgimento de resistência bacteriana (CUNHA, 2018).

O uso rotineiro da terapia combinada de antimicrobianos não é recomendada, visto que, não há dados suficientes que apoiem seu impacto na prevenção da resistência bacteriana por este motivo a indicação de combinação de antimicrobianos fica restrita a casos mais complexos de resistência bacteriana. Ainda assim, mesmo nesses casos mais complexos é importante que após a avaliação o resultado do antibiograma é recomendado o descalonamento para reduzir a exposição a antimicrobianos (DREW, 2009).

Descalonamento

Trata-se da reorientação da terapia empírica inicial após o resultado das culturas promovendo o uso do antimicrobiano com espectro mais específico, afim de focar efetivamente no patógeno infectante e também na eliminação de associações redundantes de antimicrobianos (CASTRO,2019).

Em uma circunstância em que a Vancomicina foi iniciada em um tratamento, porém o resultado da cultura deu negativo para MRSA (Staphylococcus aureus resistente a meticilina), a vancomicina então poderá ser removida da terapia resultando numa diminuição de exposição do paciente a antimicrobianos e também uma considerável redução de custo. (DREW, 2009).

Terapia sequencial

Geralmente os pacientes com infecções mais graves requerem hospitalização e iniciam a terapia de antimicrobianos de forma parenteral, quando paciente apresentar um quadro clínico com a condições de estar afebril, apresentar leucograma normalizado, trato enteral viável e melhora clínica é possível converter o tratamento de via parenteral para via oral com o objetivo de reduzir riscos de um tempo de internação maior( facilitando alta precoce e consequentemente a liberação de leitos) e também a redução de custo pelo fato de o medicamento endovenoso ter um maior valor do que o oral (CASTRO, 2019).

Otimização da dose

Para realizar a otimização da dose deverá ser levado em conta as características individuais do paciente (peso, idade, função renal, etc.), organismo causador e local de infecção (meningite, endocardite, etc.). Outro ponto a ser considerado também é farmacocinético e farmacodinâmico do antimicrobiano, que estará mais relacionada a diretrizes e protocolos do que com a individualidade do paciente (BRASIL, 2017).

Tecnologia da Informação e laboratórios

O laboratório de microbiologia clínica tem um papel significativo para a prescrição correta de antimicrobianos, pois isola, identifica e determina o perfil de sensibilidade a antimicrobianos dos patógenos causadores de infecções. Os resultados das culturas possibilitam a reavaliação e a readequação da terapia antimicrobiana prescrita empiricamente (BRASIL,2017).

Outro fator considerável é a escolha do teste que será realizado uma vez que o PCT (Procalcitonina) têm se mostrado efetivo para o diagnóstico de paciente com infecções no trato respiratórios e sepse. Já os testes rápidos para Influenza e Streptococcus A. podem ser úteis para identificar pacientes com infecções bacterianas versus virais. Os diagnósticos moleculares (PCR) proporcionam um diagnóstico mais rápido e com especificidade, sendo ideal para casos mais críticos trazendo uma melhor administração de antimicrobianos ao paciente resultados clínicos (NATHWANI, 2013).

A Tecnologia da Informação terá um papel fundamental na integração e a melhoria dos processos desenhados dentro do Programa, pois a maioria das ações requer informações rápidas e precisas, que podem ser fornecidas por uma boa ferramenta informatizada. (BRASIL, 2017).

Dependendo dos recursos disponíveis as intervenções realizadas pelo programa Stewardship pode ser obtida por meio de vários níveis de complexidade. Tal direcionamento pode incluir o uso de registros de farmácia para identificar pacientes que estão recebendo antimicrobianos de amplo espectro ou antimicrobianos de alto-custo, rastreamento de padrões de resistência antimicrobiana e eventos adversos a medicamentos (DELLIT, 2007).

Educação e treinamento

A educação é uma peça-chave no programa, principalmente em relação a adesão do programa no momento da prescrição. As ações educacionais incluem atividades passivas, bem como participação em conferências, sessões de ensino para colaboradores e alunos, acesso a diretrizes e materiais de apoio, além de alertas por e-mail (DELLIT, 2007).

As intervenções também são uma forma educacional que podem ser realizadas através de round clínico, auditoria com intervenção e feedback; e reavaliação das prescrições (visando a racionalização e descanolamento da terapia) (NATHWANI, 2013).

É importante que o processo de treinamentos seja mensurado, a fim de analisar a qualidade, compreensão e aproveitamento das informações transmitidas. A análise desse processo pode ser realizada através de formulários de presença, avaliação de treinamento, certificados, questionários e relatórios (NATHWANI, 2013).

Uma forma de nortear as ações do programa são os Guidelines e protocolos institucionais embasados em evidências cientificas que devem ser adaptados a microbiologia local e estarem bem alinhados junto ao corpo clínico e a equipe multidisciplinar (DELLIT, 2007).

O uso de guidelines e protocolos não se restringem apenas a recomendações direcionadas a prescrição de antimicrobianos, também engloba critérios de admissão, assistência da enfermagem, testes laboratoriais, planejamento de alta, farmácia clínica, entre outros (DREW, 2009).

Indicadores

Os indicadores têm o objetivo de demonstrar se as atividades propostas estão sendo bem executadas, ou ainda se os objetivos propostos foram alcançados (BRASIL, 2017).

Podemos mensurar a adesão ao programa, quanto a prescrição de antimicrobianos, tempo de tratamento, percentual de descalonamento, adesão aos protocolos institucionais e intervenções através dos indicadores de processos. Alguns dados podem ser utilizados para medir e avaliar a utilização dos antimicrobianos. PAGNUSSAT,2019).

Dose diária definida (DDD) – é a dose diária de manutenção do antimicrobiano (em gramas), se trata de uma unidade de medida e não reflete necessariamente a dose diária recomendada ou prescrita os dados de consumo de antimicrobianos apresentados em DDD apenas dão uma estimativa aproximada do consumo e não uma imagem exata do uso real, tendo por objetivo permitir a avaliação das tendências no consumo desses antimicrobianos (BRASIL, 2017).

Fórmula de cálculo da DDD:
DDD= A/ B x 1000
P
A = Total de antimicrobiano consumido em gramas (g), no período de tempo considerado.
B= Dose diária padrão do antimicrobiano calculado em gramas para adulto de 70 kg, sem insuficiência renal (definido pela OMS)
P= Pacientes- dia, no período de tempo considerado (CASTRO,2019).

Dias de terapia (DOT- Days of therapy) – é o número de dias em que o paciente recebe um agente antimicrobianos, ou seja, qualquer dose de um antimicrobiano recebida em 24 horas representa um DOT. A medida do DOT é relativamente intuitiva e oferece maior relevância clínica e maior precisão na relação entre o tratamento recebido e o paciente, em comparação com a DDD (BRASIL, 2017)

Fórmula do DOT:
Número total (somatória) de dias de uso de cada antimicrobiano x1000
Total de pacientes- dias

Duração da terapia (LOT- Lenght of therapy) – é o número de dias em que o paciente recebe agentes sistêmicos, independentemente do número de fármacos. Ao contrário do DOT, a LOT não pode ser usada para comparar o uso de drogas específicas, mas fornece uma avaliação mais precisa da duração da terapia antibacteriana (CASTRO, 2019).

Fórmula do LOT:
Número total (somatória) de dias de uso todos os antimicrobianos juntos x1000
Total de pacientes- dias

Há também os indicadores de resultados/ desfechos que podem ser ordenados em microbiológicos, clínicos e financeiros (BRASIL, 2017).

Para analisar o impacto microbiológico da instituição pode-se verificar a taxa de incidência de infecção por C. difficile e por bactérias multirresistentes de destaque, como a Enterobactérias produtoras – EBSL, as gram-negativas (Acinetobacter spp, Pseudomonas aeruginosa e Klebsiella pneumoniae) e também as gram-positivas (Staphylococcus aureus e Enterococcus ssp.) (PAGNUSSAT, 2019).

Os indicadores clínicos podem ser mensurados através das taxas de mortalidade global e específica relacionada a bactérias resistentes, extensão de permanência quanto a duração da hospitalização, taxas de melhora clínica e readmissão relacionada a diagnósticos infecciosos e taxas de reação adversas aos antimicrobianos. O proposito dessa análise é verificar se de fato há otimização dos resultados dos pacientes tratados com os antimicrobianos (CASTRO, 2019).

Quanto aos resultados financeiros, podem variar dependendo da instituição, do local e tempo por isso não podem ser usados como comparativos entre outros serviços de saúde. O custo dos antimicrobianos podem ser calculados no hospital de forma geral ou em uma unidade específica em determinados período de tempo. Outra forma de mensurar é através de tratamentos específicos ou por indicação clínica (PAGNUSSAT, 2019).

Aspectos custo-benefício

A redução de custos com a implementação do ASP é incontestável, uma vez que o consumo de antimicrobianos serão minimizadas como consequência do uso racional dos antimicrobianos. As intervenções no uso de antimicrobianos podem reduzir seu consumo em 22 – 36 %, que corresponde a uma redução de custos de US $ 200.000-900.000 por ano, como em alguns hospitais nos EUA (COULTER,2015).

Para o UW Health o programa de Stewardship além de trazer a instituição uma melhoria na segurança do paciente e uma terapia antimicrobiana eficaz trouxe também uma redução no orçamento anual referente a aquisição de antibióticos em quase 50% por paciente admitido em comparação a uma década atrás e uma redução de U$1,13 milhões por ano com custo de aquisição de medicamentos em comparação há 3 anos atrás. Também houve uma diminuição no custo de antimicrobianos por admissão equivalente a U$85. (FOX, 2018).

Vale ressaltar que a comparação financeira do programa de Stewardship em diferentes instituições não é viável, uma vez que as instituições apresentam tamanhos diferentes, variedade no perfil de atendimento e pacientes, disponibilidade de recursos, entre outros. Nesse caso, há uma necessidade de mais avaliações econômicas com uma abordagem padronizada e coleta de dados relevantes sobre a eficiência da redução de custos e das estratégias utilizadas no programa (COULTER, 2015).

CONCLUSÃO

Tomar medidas contra a resistência bacteriana envolve a segurança do paciente e estratégias para minimizar o uso de antimicrobianos, tais medidas devem ser bem estruturadas e estar alinhada entre todos os colaboradores da instituição. No caso do programa de Stewardship é necessário o aporte da alta gestão e que a equipe multidisciplinar entenda o objetivo e organização do programa para que possa multiplicar os protocolos e diretrizes para os demais colaboradores. Outro ponto importante é que os setores como TI e laboratório de microbiologia tenham uma boa infraestrutura para atender as necessidades do programa.

Desse modo, a implementação do programa de Stewardship compreende em entender a situação atual da instituição e implantar intervenções aos poucos respeitando as particularidades de cada setor e dos recursos disponíveis. Além de acompanhar o progresso através dos resultados e dispondo de uma constante educação e treinamento aos colaboradores para que sempre estejam alinhados com o propósito do programa e da instituição.

O farmacêutico é de suma importância tanto na implementação do programa quanto na continuidade do programa. Deve ter experiência na área de infectologia, de modo que realizará intervenções nas prescrições, participará diretamente nos protocolos e diretrizes do programa, na padronização dos antimicrobianos e nos indicadores de consumo.

REFERÊNCIAS

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A Importância do Farmacêutico Clínico na Unidade de Terapia Intensiva no Trabalho da Sepse em Adultos

Por: André Luiz da Silva Peixoto, Jonathas de Oliveira Linhares, Luciana Ap. Ferreira Yoshizumi, Paulo Henrique de Souza Lima e Claudinei Alves Santana.

Artigo apresentado ao Senac como conclusão de curso como exigência parcial para obtenção do título de “Especialista em Farmácia Clínica e Hospitalar”.

São Paulo – SP, 2021.

Este artigo será submetido a avaliação da Revista da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar, uma publicação oficial da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde.

ABSTRACT


Objective: To discuss the clinical pharmacist’s contribution to intervention and assistance in the antibiotic therapy protocol in cases of sepsis and septic shock in intensive care units.

Methods: This is a bibliographical research carried out through a narrative review on the importance of the clinical pharmacist in the ICU in the treatment of sepsis. References were searched between September and November 2020 in the databases of the National Library of Medicine (PUBMED), the International Literature on Health Sciences (MEDLINE), and the Scientific Electronic Library Online (Scielo). The descriptors used were: septic shock, sepsis, clinical pharmacist, intensive care unit.

Results: From the methodology used, 55 articles were found. Some were excluded because they did not clearly address the role of the pharmacist, others were in another language of reading in full, some with restricted access, 18 were used to build this work.

Conclusion: It is concluded that pharmaceutical interventions concerning the antibiotic therapy significantly reduced adverse reactions to medications and hospitalization costs.

Key word: pharmaceutical intervention,sepsis,septic shock.

Resumo

Objetivo: Discutir a contribuição do farmacêutico clínico para a intervenção e auxílio no protocolo de antibioticoterapia em casos de sepse e choque séptico nas unidades de terapia intensiva.

Métodos: Trata-se de uma pesquisa bibliográfica realizada através de uma revisão narrativa sobre a importância do farmacêutico clínico na UTI no tratamento de sepse. As referências foram pesquisadas entre setembro e novembro de 2020 nas bases de dados da National Library of Medicine (PUBMED), Literatura Internacional em Ciências da Saúde (MEDLINE), da Scientific Electronic Library Online (Scielo). Os descritores utilizados foram: choque séptico, sepse, farmacêutico clínico, unidade de terapia intensiva.

Resultados: A partir da metodologia utilizada foram encontrados 55 artigos. Alguns foram excluídos pois não abordavam com clareza a atuação do farmacêutico, outros estavam em outro idioma da leitura na íntegra, alguns estavam com acesso restrito, 18 foram utilizados para construir esse trabalho.

Conclusão: Conclui – se que as intervenções farmacêuticas na adequação da terapia antimicrobiana fizeram diminuir, de forma significativa as reações adversas aos medicamentos e redução dos custos com internações.

Palavras-chave: intervenção farmacêutica, sepse, choque séptico.

Introdução


Sepse pode ser definida como uma resposta imunológica sistêmica desregulada a uma infecção causada por microrganismos como bactérias, vírus, fungos e parasitas. O reconhecimento e o tratamento precoce através de triagem e os cuidados precoces e intensivos realizados por uma equipe multidisciplinar, são vitais para aumentar a chance de sobrevivência, fazendo a mortalidade por sepse diminuir1-2. Essas infecções, trazem diversos sinais que podem auxiliar quanto a essa síndrome, da qual pode se destacar a falta de ar, febre (temperatura acima de 38º), hipotermia (temperatura abaixo de 36º), vômito, taquipneia, fraqueza, alterações da consciência com sonolência, agitação ou confusão mental (especialmente em idosos) e taquicardia3. As medidas estabelecidas, num período de 6 horas após o diagnóstico, para o tratamento de sepse e choque séptico incluem-se: hemoculturas, estudos de imagem no intuito de confirmar uma fonte potencial de infecção, medida de lactato nos 30 minutos iniciais e após as primeiras 6 horas, determinação da saturação de oxigênio venoso misto (SVO²) e infusão de volume, com a finalidade de atenuar a hipotensão4.


Na saúde pública, a sepse é um grave problema nas Unidades de Terapia Intensiva (UTI), e apesar de todos os esforços de investigação, continua sendo um grande desafio o diagnóstico precoce, e nas últimas décadas houve um crescente e considerável aumento nos cuidados da saúde. Estima-se que no Brasil a sepse é a segunda causa de morte na UTI, aproximadamente 200 mil casos ao ano, tendo uma mortalidade de 35% a 45% para sepse grave, e de 52% a 65% para choque séptico5. A sepse é um problema para os sistemas de saúde não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, tanto do ponto de vista econômico como do social. De acordo com estudo epidemiológico dos Estados Unidos (EUA), nos últimos 20 anos, a incidência da sepse aumentou de 82,7 para 240,4/100 mil habitantes, bem como as mortes relacionadas a ela6.


O impacto real da sepse em escala global é desconhecido. Em 2016, uma revisão sistemática na população adulta constatou que, nos últimos 10 anos, a taxa de incidência foi de 437 por 100.000 pessoas/ano para sepse e 270 por 100.000 pessoas/ano para casos de sepse grave em países de alta renda, com mortalidade hospitalar de 17% para sepse e 26% para sepse grave nesse período. Não foram feitas estimativas da incidência de sepse em países com menores rendimentos limitando a previsão de casos e óbitos globais. Entretanto, a partir desses dados foram feitas estimativas de 31,5 milhões de casos de sepse e 19,4 milhões de sepse grave, com potencial de 5,3 milhões de óbitos por ano. Estudos afirmam que o reconhecimento e o diagnóstico precoce, acompanhado do tratamento efetivo após o diagnóstico da sepse são condutas de tratamento prioritárias7-8.


Desde 2002, um comitê internacional, dirigido por três sociedades médicas (Society of Critical Care Medicine, European Society of Intensive Care Medicine and International Sepsis Forum), vem desenvolvendo uma campanha em todo o mundo, denominada Surviving Sepsis Campaign (Campanha Sobrevivendo à Sepse), uma ação com a finalidade de implementar, à beira-leito, um protocolo baseado nas melhores evidências científicas disponíveis9.


Em 2019, foi publicado pela ANVISA a RDC nº 675, que regulamenta as atribuições do farmacêutico clínico em unidades de terapia intensiva, devido ao fato de estar absolutamente comprovado e reconhecido a importância do farmacêutico como membro da equipe multidisciplinar, estabelecendo a necessidade da assistência farmacêutica à beira do leito. Entre as principais funções destacam-se prevenir, identificar, avaliar, intervir, monitorar, conciliar medicamentos, avaliar farmacoterapia, identificar e notificar possíveis reações adversas, avaliar periodicamente os resultados da intervenção farmacêutica contribuindo para a restauração da saúde do paciente em Unidade de Terapia Intensiva (UTI)10.


Tendo em vista a relevância da sepse, este trabalho tem por objetivo, apresentar estudos que comprovem a importância da presença do farmacêutico clínico no cuidado de pacientes em UTI com quadro clínico de sepse.

Métodos

O estudo apresenta uma pesquisa bibliográfica realizada através de uma revisão narrativa sobre o farmacêutico clínico no manejo e tratamento da sepse ou choque séptico na unidade de terapia intensiva. As referências foram pesquisadas entre setembro e novembro de 2020 nas bases de dados da National Library of Medicine (PUBMED), Literatura Internacional em Ciências da Saúde (MEDLINE), da Scientific Electronic Library Online (Scielo). Os descritores utilizados foram: choque séptico, sepse, farmacêutico clínico, unidade de terapia intensiva. Após a identificação dos estudos foi realizada uma leitura crítica e interpretativa na qual foram selecionadas as informações para responder os objetivos do estudo.

Resultados

A partir da metodologia utilizada foram encontrados 55 artigos. Deste 14 foram excluídos pois não abordavam com clareza a atuação do farmacêutico, 11 estavam em outro idioma da leitura na íntegra, 12 estavam com acesso restrito. Sendo assim 18 artigos foram utilizados para elaboração deste artigo de revisão.

Discussão

Desde as primeiras publicações realizadas pela Campanha Sobrevivendo à Sepse, destaca-se a importância do diagnóstico precoce e do início imediato do manejo clínico e farmacoterapêutico, e este movimento teve início em 2002 e tem se comprometido a desenvolver uma consciência global e uma mudança de comportamento com relação ao problema, além de publicar guias clínicos para ajudar instituições de saúde a desenvolver protocolos próprios de sepse11.


Outro ponto fundamental da campanha de combate a sepse, são os pacotes de ações a serem seguidos nas primeiras horas após diagnóstico, estas ações envolvem principalmente a ressuscitação volêmica, administração de antibióticos de amplo espectro, coleta de sangue para medida de lactato e realização de culturas bacterianas. Um importante estudo retrospectivo de coorte recolhendo dados entre 1989 e 2004 de 14 UTIs em 10 hospitais no Canadá e nos Estados Unidos, que mostrou um aumento na mortalidade de 7,6% por cada hora de atraso para o início da administração dos antibióticos apropriados depois do diagnóstico de choque séptico, o que reforça a importância de um conjunto de ações rápidas para a estabilização do paciente12.


De acordo com um estudo realizado por Horng et al, no hospital Henry Ford em Detroit, Michigan, Estados Unidos, com o intuito de melhorar os resultados dos pacientes, tornar uma prioridade a administração oportuna de antibióticos a pacientes com sepse e choque séptico tendo relação com as taxas de sobrevida, foi fundamental no redesenho do fluxo de trabalho dentro da farmácia de internação, fazendo com que utilizasse uma metodologia enxuta no desenvolvimento do novo fluxo de trabalho da sepse, levando a uma redução significativa no tempo desde a entrada do pedido até a administração dos principais antibióticos. O prazo para os pacientes receberem os antibióticos diminuiu de 2 horas, a menos de uma hora e meia, o que representa uma redução estatisticamente e clinicamente significativa no tempo desde o reconhecimento da sepse grave e choque séptico até a administração de antibióticos, mostrando que os farmacêuticos desempenham um papel primordial durante esse período. O impacto das mudanças feitas no departamento foi visto na diminuição clinicamente significativa do tempo médio necessário desde a entrada do pedido até a administração do antibiótico14.


O papel do farmacêutico era auxiliar na hora da solicitação e verificação de antibióticos e, finalmente, a entrega dos medicamentos, sendo que em alguns casos, com base no protocolo que foi implementado, se um antibiótico não fosse solicitado em 15 minutos, o farmacêutico entraria em contato com o médico para obter a aprovação para inserir um pedido, sabendo que o farmacêutico iria avaliar o paciente e inserir um pedido de antibiótico de sua escolha com base na apresentação história e fonte suspeita de infecção15.


Um dos determinantes mais importantes da evolução dos pacientes com sepse grave e choque séptico foi a adequação da terapia antimicrobiana, o aumento do surgimento de resistência antimicrobiana, bem como o aumento da ocorrência de infecção por patógenos não bacterianos, como fungos e vírus, contribui para o aumento das taxas de tratamento inadequado, podendo ocasionar o óbito dos pacientes. O NNT (número necessário para tratar) dos antimicrobianos tem como vantagem fornecer relevância clínica, em termos de tomada de decisão em relação à terapia antimicrobiana, podendo ajudar os médicos a direcionar melhor os tipos de patógenos, o que resultaria em melhores resultados com a administração aprimorada de terapia antimicrobiana apropriada16.


Um estudo detalhado que foi realizado com as intervenções realizadas por farmacêuticos em UTIs, fazendo diminuir, de forma significativa, o número de eventos por 1000 pacientes ao dia monitorados como, reações adversas aos medicamentos, Interações medicamentosas, erros de prescrição (envolvendo medicamento errado ou omissão de dose, erros no monitoramento e dosagem imprópria que resultaram em danos ao paciente) sabendo que dos medicamentos envolvidos nestes erros de prescrição 23,4% eram antimicrobianos. Para demonstrar ainda mais o quanto o farmacêutico pode ser um profissional efetivo na redução de erros de prescrição e de danos ao paciente o estudo foi realizado nos períodos de 3 semanas (sem intervenção) comparando com o de 8 meses (com intervenção) tendo como resultado final a redução em 3 vezes do número de eventos por 1000 pacientes ao dia monitorados. Das características deste estudo, a idade média dos pacientes monitorados foram 54 – 66 anos de idade sendo atendidos em suas respectivas necessidades (clínicos, cirúrgicos, neurológicos, traumas, queimados, oncológicos, neurocirúrgicos, cardiotorácicos e cardíacos), sendo atendidos na Holanda, Grã-Bretanha, Tailândia e nos Estados Unidos17.


Um estudo descritivo realizado por Beardsley et al, foram analisadas a atuação do farmacêutico na implantação de um protocolo de sepse e a mortalidade relacionada a sepse do hospital Wake Forest Baptist Health, em Winston-Salem, Estados Unidos, como parte do protocolo de sepse estabelecido na instituição. Na análise quando a ferramenta de triagem apontava um caso positivo, toda a equipe era notificada, inclusive a farmácia, e o paciente era então avaliado pela equipe multidisciplinar. O índice de mortalidade relacionada à sepse ao longo do tempo caiu de um valor médio de 1,65 pacientes nos cinco trimestres anteriores à implementação do Código Sepse para 0,8 pacientes no período de abril de 2013 a março de 2014. Nas fases de planejamento e execução, o programa Code Sepsis aumentou a cooperação entre as demais equipes. Os profissionais da farmácia trabalharam com representantes das equipes médica e de enfermagem para analisar todos os aspectos do processo de uso de medicamentos relacionados aos antibióticos para sepse. Um aspecto importante da iniciativa do Código Sepse foi a implementação de um protocolo que permite aos farmacêuticos escolher os antibióticos para sepse, liberando os médicos para se concentrarem em outros aspectos críticos do cuidado do paciente, sem atrasar a administração da terapia antimicrobiana. Os processos foram então melhorados e a mortalidade diminuiu a um ponto que excedeu as expectativas dos pesquisadores. Como mostra a Figura 1, o Hospital Wake Forest Baptist Health (linha verde) teve um desempenho melhor do que a média apresentada pelas demais instituições integrantes do University HealthSystem Consortium (linha roxa), o que se traduziu em mais de 200 vidas salvas por ano13.

Figura 1. Mortalidade relacionada à sepse.

Descrição da imagem

Modificado de: Beardsley, J. R., Jones, C. M., Williamson, J., Chou, J., Currie-Coyoy, M., & Jackson, T. (2016). Pharmacist involvement in a multidisciplinary initiative to reduce sepsis-related mortality. American Journal of Health-System Pharmacy, 73(3), 143–14.

A Intervenção Farmacêutica aumentou a porcentagem de pacientes com SSAT (proporção de pacientes com seleção inicial bem-sucedida da terapia antimicrobiana) de forma significativa, beneficiando não somente os pacientes com sepse, mas também todos os outros tipos de pacientes nas UTIs, reduzindo eventos adversos e erros de medicação, redução dos custos dos medicamentos, facilitação da administração oportuna de medicamentos e melhoria na conformidade com o protocolo durante emergências médicas18.

Conclusão
A sepse e o choque séptico continuam sendo um desafio nas UTI necessitando de atuação da equipe multiprofissional tendo o farmacêutico como membro fundamental no processo do cuidado ao paciente.
Os resultados obtidos sugerem que as diversas intervenções farmacêuticas no sentido de otimizar a terapia medicamentosa, visando melhores resultados clínicos, segurança, efetividade e economia, tornam a inclusão do farmacêutico clínico um fator chave e imprescindível para melhorar a administração oportuna de antibióticos apropriados. Sua participação é uma ferramenta viável para melhorar o atendimento de pacientes com sepse e choque séptico, destacando os importantes papéis operacionais e clínicos que podem ser desempenhados na melhoria do tratamento.

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Ina, assistente virtual da Opuspac University

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