Opuspac University

Investigação de problemas relacionados à Farmacoterapia em pacientes idosos polimedicamentosos atendidos na Atenção Primária à Saúde no município de Conchal

Resumo

O índice populacional idoso no país tem tido um valor crescente e significativo, em decorrência do aumento da perspectiva de vida desse grupo populacional, através da melhoria de qualidade de vida, a qual se inclui a terapia medicamentosa. Como consequência, expande-se o uso da polifarmácia, na maioria das vezes ocasionado pelo aumento das Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). O papel do profissional farmacêutico neste âmbito é promover o acompanhamento farmacoterapêutico a esses pacientes, a fim de poupá-los de interações medicamentosas e reações adversas a medicamentos, utilizando o Critério de Beers, garantindo, efetividade de tratamento. Para isso, foi feito um questionário, contendo 16 questões, para 50 pacientes com idade superior a 60 anos de idade, que façam uso de polifarmácia de forma continua, e frequentem a Farmácia Municipal de Conchal. Foi comprovado que 54% da população que faz uso da polifarmácia são mulheres e 46% são homens. A média de polifarmácia utilizada pelos mesmos, foi de 7,5 medicamentos e 94% das prescrições tinham uma ou mais interações medicamentosas. Concluiu-se que os ricos de interações ocorrerem é muito alto, frente a vulnerabilidade do grupo estudado. Por essa razão, verifica-se a necessidade do profissional farmacêutico fazer parte da equipe multidisciplinar na atenção primária a saúde (APS).

Palavras-chave: 1. Polifarmácia. 2. Idosos. 3. Interação Medicamentosa.  4. Reações Adversas

Introdução

O índice populacional idoso no país atualmente, tem um valor significativo e crescente, levando em consideração os cuidados e avanços tecnológicos que diminuem as chances de óbito e melhoram a qualidade de vida do mesmo, aumentando sua expectativa de vida. Com isso a saúde pública ganha um imenso desafio, pois como consequência a esse valor crescente, acompanhou-se, o aumento de consumo de medicações por esta mesma população (LUTZ; MIRANDA; BERTOLDI, 2017; MYRRHA; TURRA; WAJNMAN, 2017; MOSEGUI, et. al, 1999). Atualmente, o Brasil conta com cerca de 28 milhões de pessoas idosas (o que representa 13% da população de todo território nacional), as quais, tem uma probabilidade maior de desenvolver morbimortalidades, e por esta razão, recorrem a terapia medicamentosa (IBGE, 2021).

O tratamento de doenças pelo intermédio do uso de medicações, é denominado farmacoterapia, e tem o intuito de melhorar a qualidade de vida do paciente. Dos impasses comuns encontrados durante esse processo estão: prescrições incoerentes, interações entre fármacos e fármacos, alimentos, álcool, tabaco e drogas ilícitas, além das administrações, posologias, automedicação, dentre outros, levando em consideração que na grande maioria das vezes os mesmos utilizam 5 ou mais medicamentos associados, seguidos por prescrição médica, além de se automedicarem. Estes resultados podem se tornar maléficos, levando em consideração que as faixas etárias prevalentes no uso da mesma são mais vulneráveis a ocorrências indesejadas, como as citadas acima (SILVA, et al., 2018; SILVA et al., 2020; GERLACK et al., 2014).

O uso associado de 5 medicamentos ou mais, recebe o nome de polifarmácia. Na maioria das vezes, esse fator ocorre pelo aumento da prevalência de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT), as quais tem uma porcentagem maior de incidência em pessoas acima dos 45 anos (SALES; SALES; CASOTTI, 2017; RAMOS et al., 2016; NASCIMENTO et al., 2017). As DCNT são representadas por patologias como a diabetes, hipertensão arterial, doenças cardiovasculares, câncer, doenças respiratórias crônicas, e são responsáveis por 63% das mortes globais, além de gerarem um gasto público alto, devido ao fornecimento de medicações na rede pública e custo médio de internações elevado, consequência de resultados negativos ao uso de medicamentos (MALTA et al., 2019).

Visando efetividade no tratamento deste grupo populacional e diminuição dos riscos de ocorrências indesejáveis, foi instituído O Critério de Beers, como uma ferramenta auxiliadora para facilitar a escolha da terapia medicamentosa especialmente do idoso, a qual é atualizada a cada três anos. Neste sistema, são listadas as medicações inapropriadas ou pouco apropriadas para serem administradas em idosos, devido ao uso excedente de medicamentos pelos mesmos. O objetivo principal do critério, é facilitar esta escolha, reduzindo possíveis reações adversas, além de avaliar os custos existentes, os padrões que estão sendo usados e a qualidade do atendimento prestado (MEDSCAPE, 2021).

Os eventos clínicos resultantes de respostas farmacológicas indesejadas, imprevisíveis ou planejadas (através da sinergia resultante da associação de drogas), que alteram a atividade do medicamento, são designadas interações medicamentosas (IM). Episódios como este, ocorrem em decorrência da administração de dois ou mais medicamentos concomitantes, ou pela presença de alimentos, bebidas, agentes químicos, que podem agir de forma sinérgica (aumentando a potência farmacológica) ou antagonizando a substância (reduzindo a eficácia), podendo também desencadear reações adversas medicamentosas (RAM) (MOREIRA, et al., 2017; OKUNO, et al., 2013; PRADO; FRANCISCO; BARROS, 2016).

A reação adversa a medicamento, conhecida como RAM, diferentemente da IM, são respostas clínicas indesejáveis, em decorrência da farmacodinâmica do medicamento em cada paciente, ainda que a administração desta medicação seja usada com dose adequada. Este tipo de acontecimento está ainda mais susceptível a idosos, e segundo SANTOS, et. al, 2019, em comparação aos jovens, a classe idosa possui sete vezes mais chances de ter uma reação adversa medicamentosa, e quatro vezes mais riscos de hospitalização,  levando em consideração a idade avançada, que ocasiona a desaceleração do metabolismo, e como consequência alterações em suas funções fisiológicas, que acarretam a farmacocinética (MOTA; VIGO; KUCHENBECKER, 2019; NAGAI, et al., 2018; RODRIGUES; OLIVEIRA, 2016).

Uma RAM, pode ainda, ocasionar gastos eminentes ao setor hospitalar, como foi apresentado pela OMS, onde alguns países demonstraram que de 15% a 20% de seus gastos foram destinados ao tratamento de pacientes acometidos por uma reação adversa ao medicamento, pois a mesma desencadeia processos patológicos e na grande maioria dos casos requer internação (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2005).

Segundo a revista de Gestão e Economia em Saúde, o custo médio de internação de pacientes com 60 anos ou mais foi de R$1.162,92 por indivíduo, enquanto o custo médio de internação para pacientes adultos (20-59 anos) foram de R$349,95 (SILVEIRA, et. al, 2013).

O Data Sus apresentou ainda que, em um período de cinco anos (2016-2020), totalizaram-se 614.316 óbitos em decorrência a intoxicação exógena somente no Brasil, sendo que 52.469 pessoas estavam acima dos 60 anos (DATA SUS, 2021)

As atribuições do profissional farmacêutico neste âmbito é promover assistência terapêutica com segurança, garantindo eficácia através de pesquisas, produção e distribuição e do acompanhamento farmacoterapêutico, aumentando a garantia e adesão do tratamento, além de promover o uso racional de medicamentos e poupar o usuário de intercorrências (CARVALHO, 2015; OLIVEIRA, 2015; LEÃO, 2014; SOUZA, 2018; SALES.; SALES; CASOTTI, 2017).

O objetivo do trabalho apresentado foi avaliar o uso da polifarmácia pela população idosa do Município de Conchal, que recorre a farmácia municipal finalidade de verificar a faixa etária de uso, gênero predominante, nível de escolaridade, além de identificar problemas relacionados à farmacoterapia, possíveis interações medicamentosas e reações adversas.

Metodologia

O presente estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa das Faculdades Integradas Maria Imaculada CAAE: 45405321.1.0000.5679. Este estudo seguiu as exigências para pesquisas que envolvem seres humanos, de acordo com a Resolução nº 466 de 2012 do Congresso Nacional de Saúde.

A pesquisa foi realizada por meio de um questionário de 16 perguntas, o qual foi aplicado a 50 pessoas (com idade superior a 60 anos, do sexo feminino e masculino). O questionário abrangia questões referentes ao sexo, idade, nível de escolaridade e referentes aos medicamentos de uso (nome do medicamento, dosagem, posologia utilizada, quem receitou, desde quando utiliza, por quanto tempo vai utilizar, se sabe para que está utilizando, está melhor, efeitos indesejáveis, forma de aquisição). Este questionário foi aplicado a pacientes que frequentaram a farmácia municipal do município de Conchal, SP e que utilizam a polifarmácia. Os participantes responderam o questionário após aceitar e assinar o Termo de Consentimento e Livre Esclarecido.

Os medicamentos foram classificados pela Anatomical Therapeutic Chemical (ATC), o qual é reconhecido internacionalmente e aprovado pela Organização Mundial da Saúde para estudos da utilização de fármacos. Por se tratar de idosos, foram avaliados os medicamentos prescritos seguindo o Critério de Beers, também reconhecido e aprovado internacionalmente como um método que garante segurança eficácia terapêutica a idosos, o qual disponibiliza uma lista com medicamentos inapropriados para serem administrados em idosos. Para identificar interações entre fármacos, foi utilizado o programa Drugs, que contém dados sobre farmacocinética, interações, dosagens.

Para as avaliações de dados e estatísticas, foi realizado a contabilização numérica geral dos itens de cada grupo (classificação Anatomical Therapeutic Chemical (ATC), quantidade e classificação de interações, grau de escolaridade e afins), e em seguida, separados por porcentagem através de regra de três simples, em cada grupo especificamente afim de compará-los.

Resultados

Durante a pesquisa foram analisados 50 pacientes idosos, dos quais 27 eram mulheres (54%) e 23 homens (46%), com idades variando entre 60 e 85 anos, com média de idade de 71 anos, onde todos faziam uso de polifarmácia. A média da polifarmácia utilizada pelos mesmos, foi de 7,5 medicamentos. Além de ter verificado a quantidade de pessoas em comparativo com a quantidade de medicações utilizadas (FIGURA 1).

FIGURA 1 – Comparativo entre número de pessoas, frente a quantidade medicamentos utilizados.

Fonte: AUTORES, 2021.

Foram contabilizados 86 medicamentos num uso geral, sendo que 59 (69%) são distribuídos pela rede pública (farmácia municipal), 16 (18%) precisam ser comprados, 10 (12%) são distribuídos tanto na farmácia municipal quanto no programa farmácia popular e 1 (1%) é exclusivamente fornecido pela rede de farmácia popular.

Os medicamentos prescritos foram divididos de acordo com a Classificação Anatômica Terapêutico Química (ATC). Verificando as classes ordenadas, observou-se que o Sistema Cardiovascular foi a classe mais utilizada, representando 30% do total, seguido da classe do Sistema Nervoso (26%)

FIGURA 2 – Distribuição dos medicamentos segundo a Classificação Anatômica Terapêutica (ATC) :

ATC1ATC2(%)
A – Trato digestivo e metabolismoA03 – Drogas nas disfunções gastrintestinais54,8
A02 – Medicamentos utilizados na diabete2019,4
A08 – Antiobesidade preparados32,9
A10 – Medicamentos utilizados na diabete6058,2
A11 – Vitaminas1211,7
A12 – Suplementos minerais32,9
Total 103100
B – Sangue e órgãos formadores de sangueB01 – Agentes antitrombóticos3690
B03 – Preparações410
Total 40100
C – Sistema cardiovascularC01 – Terapia cardíaca75
C02 – Anti-hipertensivos128,6
C03 – Diuréticos3525
C05 – Vasopressores1913,6
C07 – Betabloqueadores2014,3
C08 – bloqueadores de canais de cálcio75
C09 – Agentes que atuam no sistema renina-angiotensina2517,8
C10 – Agentes modificadores de lipídios1510,7
Total 140100
D – Medicamentos dermatológicos D06 – Antibióticos e quimioterapêuticos para uso dermatológico2100
Total 2100
G – Sistema genito urinário e hormônios sexuaisG04  – Urológicos3100
Total 3100
H – Preparações hormonais sistêmicas, excluindo hormônios sexuais e insulinasH03 – Terapia tireoidiana13100
Total 13100
J – Anti-infectivos para uso sistêmicoJ01 – Antibacterianos para uso sistêmico  1100
Total 1100
L – Agentes antineoplásticos e imunomoduladoresL04 – Imunosupressores11000
Total 1100
M – Sistema músculo esqueléticoM01 – Produtos anti-inflamatórios e anti-reumáticos120
04 – Preparacões anti-gotas480
Total 5100
N – Sistema nervosoN02-  Analgésicos7611,7
N03 – Antiepiléticos59,8
N04 – Drogas anti-Parkinson59,8
N05 – Psicolépticos1325,4
N06 – Psicanalépticos1529,4
N07 – Outras drogas do sistema nervoso713,7
Total 51100
R – Aparelho respiratórioR03 – Medicamentos para doenças obstrutivas das vias aéreas666,6
R06 – Anti-histamínicos para uso sistêmico333,3
Total 9100
Fonte: AUTORES, 2021.

Das 50 prescrições analisadas observou-se que 43 delas (94%) tinham uma ou mais interações medicamentosas.

No que se diz as interações classificadas como leve, observou-se um total de 16,2% interações, notou-se maior frequência de interação entre ácido acetilsalicílico e espironolactona (14,6%), presente em 7 prescrições (Figura 3).

Figura 3 – Relação de interações classificadas como leves

Fonte: Autores, 2021.

 Das interações moderadas, foi verificado 78,2% (Figura 4), com maior frequência de interação entre ácido acetilsalicílico e insulina regular (3,84%), presente em 9 prescrições.

Figura 4 – Relação de interações classificadas como moderadas

Fonte: Autores, 2021.

As interações classificadas como graves (Figura 5), foram contabilizadas 5,6%, com uma frequência maior de interações entre ácido acetilsalicílico e rivaroxabana (11,76%), clopidogrel e omeprazol (11,76%), enalapril e valsartana (11,76%), fluoxetina e tramadol (11,76%). Todas essas interações de maior incidência, foram observadas em duas prescrições cada.

Figura 5 – Interações graves

Fonte: Autores, 2021.

A partir da avaliação das prescrições, apontou-se 7 prescrições, que não continham nenhum tipo de interação medicamentosa. Dentre todos os medicamentos presentes nas prescrições, 23 medicamentos (alprazolam, amitriptilina, carbamazepina, ciprofloxacino, clonazeoam, dabigatrana, digoxina, diltiazen, diazepam, doxazosina, espironolactona, fenobarbital, insulina humana, insulina regular, metildopa, olanzapina, paroxetina, quetiapina, prometazina, rivaroxabana, tramadol, varfarina) não são recomendados ou são pouco adequados para serem utilizados em idosos, de acordo com o Critério de Beers (2019) (Figura 6).

Figura 6 – Classificação Critério de Beers

Discussão

De acordo com o presente estudo, foi observado que 54% dos participantes eram mulheres, enquanto 46% eram homens. A maior prevalência do sexo feminino, foi também verificada em uma pesquisa feita pelo IBGE no ano de 2019, onde 82,3% de uma população de 159,6 milhões de pessoas que se consultaram com um médico na rede de atenção básica à saúde, eram mulheres. Este fator de relevância, segundo Gomes, et. al (2007), se deve em primeiro lugar, ao autocuidado que já é de natureza feminina, em segundo, a masculinidade que o homem quer “preservar”, mostrando-se robusto, não vulnerável, forte. Além de que 50,8% da população total do Brasil, se trata de mulheres (IBGE, 2021 ).

Foi averiguado que 94% das prescrições continham um ou mais interações, sendo que 78,2% foram classificadas como interações moderadas, evidenciando as chances elevadas de desenvolvimento de interações medicamentosas e/ou reações adversas a medicamentos. A fragilidade e vulnerabilidade da população idosa, os expõe a riscos seríssimos frente ao uso exacerbado de medicamentos que os mesmos utilizam, já que em decorrência de sua idade, ocorre o desaceleramento do metabolismo, acarretando a farmacocinética e farmacodinâmica, devido a alterações fisiológicas e morfológicas provenientes da idade elevada, além da grande maioria portar doenças degenerativas, como confrontado por Neves, 2019.

Observa-se que a grande maioria (42%), não tem ensino fundamental completo.

De acordo com a contabilização dos medicamentos que são utilizados, foi averiguado que 82% dessas medicações (o que representa mais da metade deles) são fornecidos pelo sistema público de forma gratuita, ficando evidente que a Política Nacional de Medicamentos, parte importantíssima da Política Nacional de Saúde, tem tido grande valência no seu objetivo de promover melhoria de condições na assistência a saúde da população.

Conclusão

A fragilidade das pessoas idosas frente as suas alterações fisiológicas demonstraram uma escala notável e preocupante, especialmente pós verificação das prescrições com um número muito alto de IM encontradas. A facilidade de acesso a essas medicações pela rede pública em partes facilita a adesão do tratamento, visto que nem sempre o paciente tem condições suficientes de compra, contudo, essa oportunidade de acesso, por sua vez, incentiva o consumo, já que é fornecido gratuitamente e favorece os riscos de reações adversas e interações medicamentosas.

Temos ainda como agravante, a situação socioeconômica em que a grande maioria se encontra. Renda baixa, baixo nível de escolaridade, fatores que contribuem para erros na administração, falta de medicamentos para completar a terapia medicamentosa, caso não seja fornecido pelo município.

Por esta razão, concluiu-se com o presente trabalho, que a presença de um profissional farmacêutico capacitado e com disponibilidade de tempo para acompanhamento farmacoterapêutico dos pacientes, é de extrema importância, principalmente, fazendo parte da equipe multidisciplinar na atenção primaria à saúde (APS), nas redes de atenção de saúde de família, promovendo bem estar, melhoria de qualidade de vida, adesão de tratamento, diminuindo ainda as chances de interações medicamentosas e reações adversas a medicamentos.

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Autores: LIMA, Fernanda Maciel; MARINI, Danyelle Cristine

Avaliação das intervenções farmacêuticas relacionadas a antimicrobianos: Farmacoeconomia e Stewardship

Introdução

A história da medicina testemunhou avanços extraordinários com a introdução dos
antimicrobianos, resultando em melhorias significativas nos desfechos de pacientes com
infecções e um notável aumento na expectativa de vida global. Entretanto, a gestão
inadequada e o uso indiscriminado desses medicamentos acenderam o alarme da
resistência bacteriana, um fenômeno que caracteriza a capacidade dos microrganismos
de se adaptarem ao ambiente em que vivem. Os programas de Stewardship de
antimicrobianos têm como missão primordial manter sob controle as taxas de resistência
bacteriana nos hospitais, através da restrição do uso de antimicrobianos de amplo
espectro e da adaptação das terapias ao perfil de sensibilidade dos patógenos isolados,
sempre que possível. Em paralelo, a farmácia clínica desempenha um papel crucial na
promoção do uso racional de medicamentos, independentemente de sua classe, com o
intuito de aprimorar a terapia e fortalecer a segurança do paciente. É relevante notar que
os antimicrobianos constituem uma fatia considerável dos custos totais com
medicamentos, sendo superados somente pelos quimioterápicos e imunoterápicos. A má
administração desses medicamentos frequentemente resulta em desfechos clínicos
desfavoráveis, especialmente nos tratamentos de infecções causadas por germes
multirresistentes (GMR), que não apenas são onerosos, mas também podem ser mais
tóxicos. Portanto, compreender detalhadamente o perfil de utilização de antimicrobianos é
crucial para assegurar a sustentabilidade da instituição de saúde, tornando-se, assim,
imperativo agir proativamente para aprimorar esse cenário. O estudo em questão
compilou e analisou intervenções farmacêuticas relacionadas ao uso de antimicrobianos,
realizadas durante o período de abril a julho de 2023, revelando reduções no espectro de
atividade desses medicamentos e economias substanciais como resultados tangíveis
dessas intervenções.


Metodologia

Estudo transversal e retrospectivo em que, por meio do software NoHarm®, plataforma de
Inteligência Artificial (IA) utilizada pela Farmácia Clínica, compilou-se as intervenções
farmacêuticas aceitas pelo corpo clínico. Após a extração, foram selecionadas somente as
intervenções correlatas a medicamentos antibacterianos, antivirais ou antifúngicos. Por
fim, de forma manual, todas as intervenções foram avaliadas individualmente no que se
refere a redução de espectro antimicrobiano. Ademais, contabilizou-se a
farmacoeconomia proveniente destas.


Resultados

Efetuados os processos metodológicos, os seguintes resultados foram obtidos. Das 271
intervenções, sendo 219 prescrições diferentes. Destas, 21 culminaram em redução de
espectro de atividade. Ademais, estimou-se economia de R$ 59.001,44.
Além disso, estratificou-se as intervenções por motivo. Bem como, por medicamento.

Com isso, evidenciou-se que o motivo de intervenções mais prevalente foi ajuste de frequência por função renal, ao passo que o medicamento que mais demandou intervenções foi o meropenem.

Conclusão

Diante do exposto, reitera-se a importância do Stewardship de antimicrobianos, não somente do ponto de vista assistencial (pela capacidade de mitigar a emergência de germes multirresistentes), mas também no que se refere à farmacoeconomia, haja vista os valores expressivos obtidos em diminuto intervalo de tempo. Isso destaca a necessidade contínua de promover práticas responsáveis de prescrição e administração de antimicrobianos, visando tanto à saúde dos pacientes quanto à sustentabilidade econômica da instituição de saúde. Portanto, a conscientização e o compromisso com o uso racional de antimicrobianos devem ser prioridades na prática clínica.

Autores: BOARO, Fernando; NUNES, Bruno Giumelli; BRUSCATO, Diana Saiara

Healthcare Mindset

Você não sentiu nos últimos anos a sensação de ficar ultrapassado pelos acontecimentos?

Provavelmente você culpou a falta de recursos, equipamentos ou pessoal. Mas, alguma vez pensou que precisava mudar a forma de encarar a realidade? Mudar de paradigma, ou de mindset? Não que esteja ultrapassado na sua profissão, porque acontece o mesmo com muitos colegas em todo o setor hospitalar, devido ao tempo de adaptação às novas realidades.

Ao observar de fora o universo do setor Healthcare, com mais de cinco décadas de experiência profissional e empresarial, consigo identificar padrões e oferecer insights de valor. Este artigo busca destacar alguns desses insights, promovendo um novo mindset para enfrentar os desafios que se avizinham.

Não importa se hoje você está bem, e sem problemas. A realidade vai chegar para todos.

Vejamos o seguinte quadro:

Você está caminhando pela linha azul, com pensamentos incrementais, enquanto a complexidade e a realidade avançam pela curva exponencial. Quando você está em cima da curva não percebe o problema, até que depois de um ponto de ruptura (breakingpoint), não poderá alcançar a realidade e nem terá tudo resolvido. Veja o exemplo do aquecimento global.

Porém, todos os anos você assiste a uma quantidade de novas ilusões, novas tecnologias que prometem resolver os problemas na íntegra. Agora é a inteligência artificial (IA), anteriormente era a telemedicina, o IoT, Blockchain e o não sei quê 5.0. E na realidade tudo isso pode ajudar, mas não resolve.

Então, vamos aprofundar nas causas primeiras (root causes) que poderá utilizar e preferentemente sem investimento.

O mindset quer dizer: Uma maneira de pensar, ou ver as coisas, uma atitude.

As soluções propostas não estão organizadas por prioridade, pois cada hospital tem um problema diferente, dada a diversidade de casos.

Mindset 1. Crescer não é a solução, mudar o modelo sim.  Você tem um monstro disforme. Aumentá-lo não resolve sua essência, continua disforme. Você tem que mudar de monstro. Vivemos numa sociedade cada vez mais complexa e continuamos com respostas superficiais.

Como diz Taiichi Ohno, criador do sistema Lean ou Lean Toyota: “o sentido comum, está normalmente errado”. Ele está querendo dizer, que não sejamos tão superficiais, devemos aplicar a regra dos 5 porquês para cada tema e não ficarmos com o primeiro porquê.

A experiência está superestimada e aqueles que decidem qual solução tomar, são os que estão no poder e não os experts, que estão perto dos problemas. Os problemas são sistêmicos e necessitam ser abordados por grupos multiculturais de setores diversos, dentro e fora da instituição. Se quiser ser criativo, tenha cuidado com os especialistas, pois têm muitas respostas engessadas.

Mindset 2.  Aonde você vai?  Existe uma estória de um homem que estava cavalgando a todo galope e ao cruzar com um monge, que surpreendido pergunta: “e você aonde vai?”  ele responde: “eu não sei, o cavalo sabe”.

No final de cada ano, quando analisamos o sucedido, vemos que muitas de nossas ações foram reações aos acontecimentos cotidianos, externos a nós, e não o resultado de uma estratégia com um propósito procurado. Temos que definir uma estratégia clara, com uma ideia poderosa, fácil de entusiasmar muitas pessoas.  Nós temos que perguntar: “onde estou, aonde quero chegar e como faço para conseguir isso”. Cotidianamente estamos correndo de um incidente ou urgência, para outro. O que se chama de estratégia incidental. Nós, preferimos reestudar o cenário com uma visão estrutural, baseada em uma mudança cultural dentro da organização.

Mindset 3. Antes de implementar uma estratégia, você tem que estabelecer a Cultura.

 “Os líderes necessitam entender de mecânica e de encanamento, mas também necessitam amar a poesia, para poder acender os corações e as mentes dos conduzidos” Tsedal Neely.

A Cultura precisa de um objetivo, com certo nível de abstração que possa atingir a todos os grupos de pessoas, com uma categoria mais elevada e abstrata. Também pode ser uma utopia ou solução idealizada, que atraia e nos permita depois materializar as ações para implementar a utopia.

Frequentemente eu conto uma estória de 4 amigos que vão pescar todos os fins de semana. Enquanto todos preparam com capricho seus anzóis, um deles, sempre chega despreparado e pede ajuda para os demais. Até que um dia, um dos amigos fala: “Neste sábado, não convidem o Zeca, pois não me sinto à vontade”. Moral da estória: quem não adiciona valor ao entorno, será rejeitado. Uma boa cultura poderia ser:  Estamos para agregar valor aos demais!

Nesse “entorno” eu incluo o Ecossistema da Saúde. Nenhuma solução será valiosa se não integra os outros, dentro e fora da instituição. Um pensamento estratégico, apoiado numa fresca cultura que consiga animar os corações de muitos, com visão no ecossistema, começa a conformar o que eu chamo de mindset adequado.

A solução apenas poderá resolver com uma visão mais holística, enxergando o bem comum. Acabou a época em que poderíamos resolver nossos problemas, tirando de outro. Temos que ser criativos e aumentar o tamanho do bolo.

Mindset 4. Uma cultura de poder, terá poucas possibilidades de converter-se no mindset adequado. Não estou falando de apenas evitar uma cultura do medo, o que seria terrível. Estou indo além disso. Uma instituição moderna e orientada ao futuro, deveria ter um ambiente de hierarquias mais horizontal, baseado em normas claras que todos possam cumprir, dentro de um sistema justo. O gradiente de autoridade é um término que define a diferença de autoridade entre um chefe e seu subordinado. Na indústria da aeronáutica existia o problema que os subcomandantes da aeronave não se atreviam a dizer que a aeronave estava muito baixa para a aterrisagem. Indo além deste exemplo, temos que perceber diversos gradientes de autoridade dentro da instituição, como um problema de exagero de poder que deve ser evitado, começando desde o nível superior.

Mindset 5. Transparência é a Ética do século XXI.  Não poderemos implementar o mindset 4, se não somos transparentes e abertos.  Temos que deixar que as críticas subam ao nível superior.

Quando um avião cai, todas suas peças são recolhidas e analisadas num hangar durante vários meses, por pessoas de outra organização. Quando uma pessoa morre, vítima de um evento adverso, nós não procedemos igual. A falta de transparência está baseada no sentimento do medo. Apesar das reclamações judiciais, ganharíamos mais, tendo uma cultura superior que ocultando para sempre os problemas. Está demonstrado que mais dos 95% dos casos de eventos adversos são responsabilidade do sistema do hospital, ou seja, mais de procedimentos e treinamentos, do que das pessoas. Seria uma boa política, liberar todos os profissionais de culpa, que ajudem a declarar os erros, exceto aqueles de índole reiterada e criminal. Proteger aos que fazem denúncias também é necessário, caso o responsável não tenha autodenunciado.

Mindset 6. O equilíbrio entre os setores internos é necessário. Os dois grandes grupos culturais de um hospital são: o setor clínico e o setor de gestão. Quando não existe harmonia e compartilhamento profundo dos objetivos e valores destes dois setores, então se passa a um sistema, onde um setor domina ao outro, com consequências importantes. A integração destes dois setores num objetivo superior, envolve uma atitude de transparência e compromisso, dentro de um ambiente com hierarquias que se respeitam com igualdade. Assim como o setor clínico quer o melhor para seus pacientes, o setor de gestão quer consolidar e aumentar seus lucros. Ambos os objetivos são legítimos, mas antagônicos e precisam resolver-se com o mínimo de tensão, com poderes comparáveis e respeito entre as partes. Muitas operações no hospital são similares a qualquer outra empresa. Enquanto a prioridade é atender aos temas clínicos, nas restantes empresas se mede muito mais a eficiência de cada processo. Numa indústria, todos estão com o cronometro na mão. O justo e adequado equilíbrio entre ambas as posições antagônicas deve ser conseguido, pois no final o Hospital é uma empresa que requer resultados econômicos, seja para o lucro, ou para sua subsistência.

Mindset 7. Mudança do modelo de negócio.  Todos os negócios no mundo estão indo em direção a um sistema de assinatura.  Em breve você já não comprará carros, fará uma assinatura para ter o carro de sua preferência. O mesmo com muitos produtos e serviços. O setor hospitalar não tem melhor negócio que faturar por um serviço que não necessita prestar. Pelo menos numa proporção. Uma cobertura de um seguro de saúde, permite que você treine, eduque e prepare seus pacientes para não ficarem doentes. E com isso, reduza seus custos e aumente seu lucro. Empresas da saúde que investem em prevenção, gastam até 30% menos que as outras. Quando um hospital trabalha para uma região, até pode ficar interessado em melhorar o sistema de água e saneamento, para evitar gastos posteriores. Já existem seguros de saúde que subsidiam academias. Evidentemente faturar por eliminar, ou atenuar doenças é totalmente diferente de um modelo por manter o paciente com saúde. O beneficiado desta mudança seria o próprio paciente. Hoje quando acontece um evento adverso o mesmo hospital segue faturando mais serviços, o qual não deixa de ser um absurdo do sistema.

Mindset 8. Orientação ao cliente. “Customer centric aproaché uma metodologia, centrada no cliente, aqui o paciente. É uma orientação para estudar e priorizar tudo o que o cliente tem como satisfação, extensamente utilizada por muitas empresas. Neste quesito, além de curar as doenças, as instituições se preocupam com a hotelaria, a comida e até o sistema de parking dos veículos. Satisfação do cliente ou UserExperience(UX) é todo um tema, pois implica medir, para dar satisfação ao paciente. Entrelaçado nos temas de Medicina baseada em Valor, este tema implica medir a satisfação do paciente, inclusive quando sai do hospital e está no período da recuperação.

O sistema Lean Healthcare, com incidência direta na Qualidade e na economia (sistema enxuto), nos diz que tudo que não agrega valor ao cliente, deve ser eliminado. Com desperdícios hospitalares (waste), perto de 30%, reduzir este número daria até uma duplicação dos resultados atuais. Embora o processo não seja automático e leve alguns anos para a mudança de cultura, e até que muitos saibam ver o que não agrega valor ao cliente, ele é muito importante e necessário como demonstram os resultados de muitos hospitais pelo mundo. Temos muito estoque sobrando, demasiadas caminhadas internas que podem ser evitas e muito espaço para recuperar.  Mais informações você encontra no livro “Lean Healthcare” de minha autoria, que está disponível para download gratuito, na plataforma Opuspac University (www.opuspac-university.com).

A aplicação das normas Lean Healthcare, (não confundir com Lean 6 Sigma), é outro dos caminhos para melhorar o Mindset, orientado ao que realmente oferece utilidade ao cliente do seguinte processo ou ao paciente que é o cliente final.

Mindset 9. Melhorar a Qualidade é também um bom negócio. Um estudo sobre os hospitais de maior lucratividade nos Estados Unidos, revela que dão muita ênfase na Qualidade – QualityAssurance(QA).  Este último conceito abarca desde a qualidade até a segurança do paciente – Patient Safety. Uma gerência de QA, ou de Lean, QualityandSafety (LQS), com hierarquia de trato direto com o diretor do hospital, seguramente dará um melhoramento dos resultados.

Aqui podemos observar como um hospital que se encontra à esquerda do ponto mínimo, ao aumentar a qualidade, se desloca para a direita, reduzindo seus custos totais, enquanto aumenta seus investimentos em qualidade. Os poucos hospitais à direita do ponto mínimo são aqueles que colocam a qualidade como um fator primordial em sua estratégia comercial e podem lucrar mais por isso. Estas soluções são propositalmente utópicas e o motivo de expressar isto aqui é de provocar novas ideais e visões, diferentes das cotidianas. Talvez não se consiga aplicar todas elas, mas ummindset não é uma sequência de procedimentos, é uma visão, um ideal a procurar. Para tempos excepcionais, se requerem soluções excepcionais.

Nota: Este artigo, foi motivado após a apresentação do Dr. Fernando Torelly e Dr. Paulo Chapchap, onde mencionaram que a situação de hospitais hoje é crítica e que chegou o momento de mudar e buscar soluções fora das instituições hospitalares.

Farmácia Clínica e o potencial clínico do Farmacêutico

A Farmácia Clínica é uma área da Farmácia que se concentra na aplicação dos conhecimentos farmacêuticos para a melhoria da saúde do paciente. Os farmacêuticos clínicos atuam na avaliação, prescrição e monitoramento da farmacoterapia, com o objetivo de garantir a segurança, eficácia e efetividade do tratamento medicamentoso.

Origem

A farmácia clínica teve sua origem no início do século XX, nos Estados Unidos. No entanto, foi somente a partir da década de 1960 que essa área começou a ganhar maior relevância, com o desenvolvimento de novos medicamentos e tecnologias. Começou a ser praticada em hospitais, onde os farmacêuticos começaram a assumir um papel mais ativo na assistência ao paciente. Atualmente, a farmácia clínica também é praticada em clínicas, consultórios, farmácias comunitárias e outros ambientes de saúde.

Os Farmacêuticos no Reino Unido desempenham um papel crucial em garantir o uso apropriado e eficaz de medicamentos para os pacientes nos hospitais. Nas últimas décadas, houve uma expansão significativa do papel do farmacêutico, indo além da simples distribuição de medicamentos para incluir cuidados farmacêuticos. Este último foca na eficácia do tratamento e na redução de efeitos colaterais.

O desenvolvimento da farmácia clínica no Reino Unido resultou em diferentes modelos de serviço. Uma pesquisa sobre estes serviços no Reino Unido em 1994 confirmou essa diversidade. A falta de um corpo de evidências autoritativo para apoiar as alegações dos farmacêuticos clínicos tem dificultado a adoção de iniciativas locais bem-sucedidas nos serviços convencionais. No entanto, há forte crença dos farmacêuticos de que a farmácia clínica melhora o cuidado do paciente e o uso de recursos. Isso foi reconhecido pelo Departamento de Saúde, que emitiu orientações aos gestores hospitalares sobre os benefícios clínicos e econômicos que poderiam ser alcançados com a implementação de serviços de farmácia clínica.

O conceito de “cuidado farmacêutico” ganhou destaque no cenário farmacêutico durante os anos 90, introduzido nos EUA por Heppler e Strand. Definido como a “provisão responsável da terapia medicamentosa com o objetivo de alcançar resultados definidos que melhorem a qualidade de vida do paciente”, foi rapidamente incorporado pelas diretrizes de boas práticas da Royal Pharmaceutical Society no Reino Unido. Embora o termo tenha se tornado comum entre os farmacêuticos, sua adoção não foi questionada quanto à sua adequação ao sistema de saúde do Reino Unido, o que gerou críticas sobre a aceitação sem questionamentos de um conceito desenvolvido em um ambiente de saúde muito diferente.

Farmacêutico Clínico

O papel essencial desempenhado pelos farmacêuticos clínicos dentro das instituições hospitalares abrange uma gama de atividades multifacetadas e vitais para a qualidade do cuidado aos pacientes.

A farmácia clínica é uma área crucial no cuidado de saúde e o farmacêutico clínico desempenha um papel multifacetado e fundamental dentro deste campo. Este profissional é o alicerce do cuidado centrado no paciente, priorizando não apenas a eficácia dos medicamentos, mas também a segurança e o bem-estar daqueles sob cuidado.

Essas atividades exemplificam o comprometimento dos farmacêuticos clínicos em assegurar uma terapia medicamentosa otimizada e personalizada, contribuindo significativamente para a segurança e eficácia do tratamento.

Algumas das principais atividades do farmacêutico clínico nas instituições hospitalares:

  • Anamnese minuciosa do paciente:

Permite entender o histórico médico do paciente, suas condições pré-existentes e necessidades específicas, auxiliando na personalização da terapia medicamentosa.

  • Reconciliação medicamentosa:

Garante que a lista de medicamentos do paciente seja precisa e atualizada, evitando erros de medicação e reduzindo o risco de erros no processo medicamentoso.

  • Análise das prescrições médicas:

 Vai além do simples cumprimento da prescrição, considerando fatores como dosagem, vias de administração e ajustes necessários baseados no clearance do paciente.

  • Ajuste de dose considerando o clearance do paciente:

Permite adequar a dose do medicamento à capacidade do organismo do paciente de metabolizá-lo, garantindo eficácia e segurança.

  • Identificação de possíveis incompatibilidades entre os medicamentos:

Evita reações adversas ou diminuição da eficácia da terapia devido a interações negativas entre diferentes medicamentos.

  • Identificação de duplicidades terapêuticas:

Previne o uso desnecessário ou duplicado de medicamentos, otimizando a terapia e reduzindo riscos de efeitos colaterais.

  • Identificação de possíveis interações medicamentosas prejudiciais:

Benefícios: Protege contra interações que poderiam interferir no tratamento, comprometendo a eficácia ou causando efeitos adversos.

  • Intervenções farmacêuticas e uma maior proximidade da equipe médica

Permitem ajustes imediatos na terapia, garantindo uma abordagem colaborativa e coordenada para a segurança e eficácia do tratamento do paciente.

  • Identificação e comunicação de alergias

Identificar e comunicar alergias ajuda a evitar a prescrição ou administração de medicamentos que possam desencadear reações alérgicas graves, promovendo a segurança do paciente. Comunicar alergias de forma clara e precisa à equipe de saúde reduz o risco de erros na prescrição ou administração de medicamentos, prevenindo situações potencialmente perigosas.

  • Análise dos resultados de exames laboratoriais

Personalização da terapia, ajusta doses e medicamentos conforme as necessidades do paciente em função de seus exames laboratoriais. A detecção precoce de problemas: Identifica complicações ou tendências negativas na saúde do paciente.

A redução de riscos, evita reações adversas a medicamentos, ajustando doses conforme resposta fisiológica; a maximização da eficácia, garante que a terapia alcance os objetivos desejados. E a colaboração interdisciplinar contribui para um plano de tratamento integrado.

  • Educação ao paciente e familiares na alta hospitalar

 Ajuda e orienta os pacientes e familiares a compreenderem os medicamentos prescritos, suas finalidades, doses e possíveis efeitos colaterais, garantindo a adesão correta ao tratamento após a alta, dando maior entendimento ao paciente da terapia medicamentosa.

Uma educação eficaz pode diminuir a probabilidade de retorno ao hospital devido a complicações causadas por má compreensão ou administração inadequada dos medicamentos, reduzindo as reinternações hospitalares. Aproveite e leia mais sobre reinternações :Desvendando a Reinternação Hospitalar”.

  • Gerenciamento de antimicrobianos – Programa Sterwardship

A gestão e controle dos antimicrobianos, também conhecida como stewardship, é um dos postos-chave onde o farmacêutico clínico se destaca. Esses profissionais lideram os esforços para garantir o uso adequado desses medicamentos e colaboram com as equipes de saúde para garantir o uso criterioso de antibióticos, antivirais e antifúngicos. Seu envolvimento vai desde a avaliação de prescrições de antibióticos até a recomendação da terapia mais eficaz e direcionada para doenças infecciosas.  Analisam a farmacocinética e a farmacodinâmica dos antibióticos e orientam estratégias de descalonamento antibiótico, prevenindo o desenvolvimento de resistência bacteriana, um dos principais desafios globais de saúde. Garantindo que os antimicrobianos sejam usados de forma mais precisa, aumentando sua eficácia no combate às infecções e diminuindo o risco de falhas terapêuticas, evitando o uso desnecessário ou prolongado de antimicrobianos, reduzindo os riscos de efeitos colaterais e reações adversas nos pacientes e economizar recursos hospitalares ao evitar tratamentos prolongados ou inapropriados, direcionando os medicamentos para onde são mais necessários, otimizando os recursos da saúde. Contribuindo para a redução de infecções hospitalares e a disseminação de organismos resistentes, melhorando a segurança dos pacientes.

Fornecendo educação aos profissionais de saúde e pacientes sobre o uso racional de antimicrobianos, promovendo uma compreensão mais ampla sobre a importância do uso correto desses medicamentos. Facilitando a comunicação entre diferentes equipes de saúde, incluindo médicos, enfermeiros e farmacêuticos, para um uso mais eficaz e coordenado de antimicrobianos.

Essas atividades em conjunto proporcionam um cuidado farmacêutico abrangente e personalizado, promovendo a segurança e eficácia do tratamento, minimizando os riscos de eventos adversos e maximizando os benefícios para o paciente e coloca o paciente no centro de seu cuidado. Com as informações necessárias, equipe médica e multidisciplinar coesas, com o objetivo de proporcionar ao paciente uma experiência positiva e com alto valor agregado.

Participação em Comissões Hospitalares

A participação ativa dos farmacêuticos clínicos nas comissões hospitalares, como a Comissão de Farmácia e Terapêutica, Comissão de Controle de Infecção, Comissão de Nutrição Parenteral, Comissão de Oncologia, entre outras, é vital, pois participando nas comissões este profissional possibilitará uma segurança e maior eficácia na terapia medicamentosa dos pacientes.  Eles colaboram com equipes médicas e multidisciplinares, contribuindo para a implementação de protocolos assistenciais, como protocolo da dor, profilaxia de TEV, profilaxia cirúrgica antimicrobiana, úlcera de pressão, quedas, broncoaspiração, entre outros, verificando o cumprimento dos protocolos institucionais e promovendo uma assistência de qualidade e segura.

Aplicações da Farmácia Clínica

  • Avaliação da farmacoterapia do paciente para identificar problemas relacionados ao uso de medicamentos (PRMs). Os PRMs podem ser erros de medicação, interações medicamentosas, alergias medicamentosas, entre outros.
  • Redução de erros de medicação, identificando e corrigindo erros de medicação, o que ajuda a prevenir eventos adversos.
  • Melhoria da adesão ao tratamento, ajudando os pacientes a aderirem ao tratamento, o que melhora os resultados clínicos.
  • Otimização da farmacoterapia, pode melhorar a segurança, eficácia e efetividade do tratamento.
  • Prescrição farmacêutica desde que possuam a devida autorização.
  • Monitoramento da farmacoterapia do paciente para garantir a segurança, eficácia e efetividade do tratamento.
  • Educação farmacêutica dos pacientes sobre o uso seguro e eficaz de medicamentos.

Vantagens para os médicos:

  • Melhoria da segurança do paciente, identificando e resolvendo PRMs,( Problemas Relacionados aos Medicamentos) contribuindo para a prevenção de eventos adversos.
  • Melhoria da eficácia do tratamento, ajudando os médicos na escolha dos medicamentos mais adequados para cada paciente e a monitorar a resposta ao tratamento.
  • Redução da carga de trabalho, pois os farmacêuticos clínicos podem assumir algumas tarefas dos médicos, como por exemplo: ajuste de doses de medicamentos para pacientes nefropatas, orientação e educação aos pacientes sobre todo seu tratamento medicamentoso, escolha do medicamento mais seguro, de melhor adesão e posologia mais cômoda, entre outras ações, liberando-os para se concentrarem no atendimento clínico.

Vantagens para os pacientes:

  • Melhor atendimento, fornecendo aos pacientes um atendimento mais individualizado e abrangente. Melhoria da qualidade do atendimento, ajudando a melhorar a qualidade do atendimento prestado aos pacientes. Identificando uma interação medicamentosa que o médico não havia notado, o que pode prevenir um evento adverso grave.
  • Contribuem com o paciente a desenvolver um plano de tratamento personalizado que atenda às suas necessidades e preferências. Por exemplo, pode trabalhar com um paciente com insuficiência cardíaca para desenvolver um plano de tratamento que inclua medicamentos, mudanças no estilo de vida e suporte emocional.
  •  Monitoram a resposta ao tratamento para garantir que o paciente esteja recebendo o tratamento correto. Por exemplo, pode monitorar a pressão arterial de um paciente com hipertensão para garantir que o tratamento esteja controlando a condição.
  •  Fornecem suporte e educação aos pacientes para ajudá-los a gerenciar sua doença de forma eficaz. Por exemplo, pode fornecer a um paciente com câncer informações sobre como lidar com os efeitos colaterais do tratamento.
  • Oferecem aconselhamento não farmacológico aos pacientes, abordando questões importantes como cessação ao tabagismo, orientações para evitar a prática da automedicação, incentivo a uma alimentação saudável, recomendação para evitar o consumo de bebidas alcoólicas, estímulo para a prática de atividades físicas sob supervisão médica e sugestões para reduzir o estresse excessivo.
  •   Colaboram com o paciente a gerenciar uma doença crônica, o que pode melhorar   a qualidade de vida do paciente e reduzir o risco de complicações.
  • Monitoram a resposta ao tratamento para garantir que o paciente esteja recebendo o tratamento correto. Por exemplo, pode monitorar a pressão arterial de um paciente com hipertensão para garantir que o tratamento esteja controlando a condição.
  •  Ajudam o paciente a economizar dinheiro na compra de medicamentos. Por exemplo, ajudar um paciente a encontrar programas de assistência farmacêutica que possam ajudá-lo a pagar pelos medicamentos.
  • Contribuem com o paciente a melhorar sua qualidade de vida. Por exemplo, ajudar um paciente com dor crônica a encontrar um medicamento ou tratamento que reduza a dor e melhore a sua capacidade de funcionar.
  • Cooperaram com o paciente a viver mais tempo. Por exemplo, ajudar um paciente com diabetes a controlar sua condição, o que pode reduzir o risco de complicações graves, como doenças cardíacas, acidente vascular cerebral e cegueira.

Vantagens para as instituições de saúde:

  • Redução de custos, contribuindo na redução dos custos de saúde, por meio da prevenção de eventos adversos e da otimização do uso de medicamentos.
  • Melhoria da segurança, melhorando a segurança dos pacientes e dos profissionais de saúde.
  • Melhoria na segurança e na qualidade do atendimento aos pacientes e dos profissionais da Saúde.

Contribuição da Farmácia Clínica

A influência dos farmacêuticos clínicos sobre as prescrições médicas nos hospitais é significativa devido ao seu conhecimento terapêutico e contato frequente com os prescritores.

Estratégias, como desenvolvimento de políticas hospitalares e treinamento pós-graduado de farmacêuticos individuais, são usadas para influenciar as melhorias nas prescrições e melhorar suas habilidades terapêuticas, e eles têm um papel crescente na educação dos pacientes sobre o uso correto de medicamentos.

A Implementação de políticas de formulários mostrou melhorias na prescrição e redução de custos, embora alguns desafios, como falta de flexibilidade e feedback insuficiente, tenham sido enfrentados.

Apesar de benefícios clínicos e econômicos reconhecidos dos serviços de farmácia clínica, a adoção em larga escala de sistemas de prescrição eletrônica ainda é um desafio, apesar dos benefícios potenciais. No entanto, espera-se que a integração desses sistemas nos registros eletrônicos de pacientes melhore a segurança do paciente.

Programas de treinamento foram fundamentais para capacitar farmacêuticos clínicos, enquanto seu papel na educação dos pacientes tem o potencial de melhorar o uso adequado de medicamentos. Embora haja reconhecimento dos benefícios, o papel dos farmacêuticos na quantificação sistemática das doenças induzidas por medicamentos ainda é limitado.

Prática Farmacêutica

A prática farmacêutica passou por uma transformação notável no último século, reconhecendo-se a contribuição da profissão para a melhoria dos resultados dos pacientes. O crescente reconhecimento da farmácia clínica é refletido em relatórios nacionais e legislações importantes, como no relatório do Institute of Medicine (IOM) ‘Errar é Humano’, que destacou a morbidade e mortalidade associadas aos erros de medicação.

Inovações ao longo do tempo marcaram a evolução da farmácia clínica, desde a participação dos farmacêuticos em rondas hospitalares até o estabelecimento de sistemas de gestão de medicamentos. Muitos marcos significativos foram estabelecidos, como a criação do Serviço de Informação de Medicamentos da Universidade de Iowa (IDIS), o Projeto de Serviços Farmacêuticos do Nono Andar em San Francisco, CA, e o início do ensino sobre o uso seguro e eficaz de medicamentos para estudantes de medicina e residentes.

A expansão dos serviços farmacêuticos clínicos nos hospitais foi notável de 1989 a 2006, reconhecendo-se como uma estratégia eficaz na redução de erros de medicação. Em hospitais com grandes populações de pacientes do Medicare, os serviços farmacêuticos clínicos mostraram-se capazes de reduzir diretamente a taxa de erros de medicação.

Legislações como a Lei de Aperfeiçoamento e Modernização de Medicamentos sob Prescrição do Medicare de 2003 e relatórios do IOM e do National Quality Forum reconheceram a autoridade e responsabilidade dos farmacêuticos na gestão de terapias medicamentosas, impulsionando a expansão de sistemas como prescrição eletrônica e suporte à decisão clínica.

Futuro

A educação continua evoluindo para preparar os futuros farmacêuticos para a prática em equipes interprofissionais e o uso da tecnologia da informação para melhorar o cuidado ao paciente. Ambientes de aprendizagem interdisciplinares e inovações educacionais, como a ‘inversão da sala de aula’, têm se mostrado fundamentais na formação de uma força de trabalho preparada para a prática clínica avançada.

O futuro da farmácia clínica é dinâmico e promissor. Com o avanço tecnológico e a evolução das práticas médicas, os farmacêuticos clínicos estão assumindo papéis mais proativos, não só na educação dos pacientes sobre o uso correto dos medicamentos, mas também na busca por novas abordagens terapêuticas.

Conclusão

O papel do farmacêutico clínico é inestimável no cenário hospitalar contemporâneo. Sua expertise, atenção aos detalhes e compromisso com o paciente não só garantem uma terapia medicamentosa eficaz, mas também contribuem significativamente para a qualidade e segurança dos cuidados de saúde. O farmacêutico clínico é o arquiteto do cuidado centrado no paciente, integrando ciência, tecnologia e empatia para promover uma saúde melhor para todos.

É essencial continuar imaginando e propagando inovações na prática farmacêutica para avançar ainda mais na profissão e na qualidade dos cuidados ao paciente.

O farmacêutico clínico é um membro essencial da equipe multiprofissional de saúde. Onde sua atuação contribui significativamente para a melhoria da saúde e da qualidade de vida do paciente, através de um atendimento mais humanizado, para isso, deve estar à beira leito para a prática de uma farmácia clínica segura, econômica e eficaz.

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*Observação:  Necessário cadastro na plataforma.

Referências Bibliográficas

  • Institute of medicine (IOM). Errar é humano: construindo uma cultura de segurança no sistema de saúde. Washington, DC: National Academies Press; 2000.
  • American College of Clinical Pharmacy (ACCP). A posição do ACCP sobre a prática clínica de farmácia: 2023. J Clin Pharm Ther. 2023;48(3):336-345.
  • World Health Organization (WHO). The role of the pharmacist in improving patient outcomes. Geneva: WHO; 2022.
  • Bates DW, Leape LL, Cullen DJ, et al. Reducing the frequency of errors in medicine. Qual Saf Health Care. 1998;7(2):185-191.
  • Bardsley M, Jones M. The history of clinical pharmacy in the United States. Am J Hosp Pharm. 1995;52(10):1557-1567.

Breve História da Farmácia: Passado e futuro

A trajetória da farmácia é um capítulo fascinante que remonta aos árabes do século II, pioneiros na arte de criar medicamentos. Suas técnicas inovadoras de destilação, extração de plantas e mistura de substâncias deram origem às boticas, onde os boticários e apotecários, verdadeiros mestres na manipulação de remédios, atendiam desde a população local até a realeza. Na antiguidade, não havia distinção entre médico e farmacêutico, cabendo a um mesmo profissional diagnosticar doenças e preparar os medicamentos necessários. Essa separação só foi oficializada por volta do século XII.

As boticas não eram apenas pontos de venda de medicamentos eram verdadeiros centros de conhecimento e sabedoria. Os boticários não só preparavam os remédios, mas desvendavam os segredos das plantas medicinais, acumulando um vasto conhecimento sobre suas propriedades e usos terapêuticos. Além disso, esses locais se tornaram centros de encontro onde pessoas buscavam curas, e conselhos sobre saúde e bem-estar, transformando os boticários em conselheiros confiáveis e respeitados em suas comunidades.

A expertise dos boticários não se limitava apenas à manipulação de remédios, eram consultados para criar misturas personalizadas, adaptando tratamentos de acordo com as necessidades individuais dos pacientes. Essa abordagem personalizada da medicina e a habilidade de compreender os diferentes efeitos das substâncias contribuíram para a reputação e confiança depositada nesses profissionais ao longo dos séculos.

As boticas, além de oferecerem medicamentos, eram locais de aprendizado, onde estudantes de farmácia podiam aprimorar suas habilidades, seguindo os ensinamentos dos mestres boticários. Esses estabelecimentos desempenhavam um papel vital na preservação e disseminação do conhecimento farmacêutico, influenciando profundamente a prática da farmácia ao longo da história.

Fonte Wikimida : A-friar-in-an-apothecary

Nesse percurso, figuras marcantes como Hipócrates (460 A.C) e Galeno (Século II) deixaram um legado crucial. Hipócrates, o notável médico grego, não apenas introduziu princípios éticos como influenciou profundamente a farmácia com sua abordagem prática. Já Galeno, considerado o pai da farmácia, ampliou consideravelmente o conhecimento médico e farmacêutico, moldando a prática farmacêutica que conhecemos hoje.

A própria origem da palavra “farmácia”, do grego “pharmakon”, ilustra a dualidade das substâncias como remédio ou veneno, uma dualidade presente ao longo de toda a história da farmacologia.  O emblemático símbolo da taça com uma serpente enrolada, originário da mitologia grega, representa o poder e a cura, refletindo a essência da profissão farmacêutica.

No Brasil

O Brasil teve sua primeira incursão na farmácia com a chegada de Diogo de Castro em 1549, trazido de Portugal pelo governador Thomé de Souza, nomeado pela coroa portuguesa. Diogo de Castro é considerado o primeiro boticário no país. No entanto, foi somente em 1839 que o Brasil estabeleceu sua primeira escola de farmácia, a Escola de Farmácia em Ouro Preto, Minas Gerais. Esta instituição foi um marco crucial, elevando a prática farmacêutica a um novo patamar de profissionalismo no país.

Farmácia Hospitalar

A evolução da farmácia também abraçou a farmácia hospitalar ao longo dos séculos, com foco na preparação e distribuição de medicamentos em ambientes hospitalares. Ao longo dos séculos, a farmácia hospitalar evoluiu para se tornar um pilar fundamental na assistência médica, contribuindo significativamente para a recuperação e saúde dos pacientes internados. Essa prática continua sendo um elemento essencial nos cuidados de saúde modernos, garantindo a integridade e eficácia dos tratamentos em ambientes hospitalares.

Profissional de Farmácia

A regulamentação da profissão farmacêutica no Brasil foi estabelecida por meio do Decreto 20.377/1931 e da Lei 3.820/1960, que deram origem ao Conselho Federal de Farmácia (CFF) e aos Conselhos Regionais de Farmácia (CRF). Essas legislações foram fundamentais para estruturar o campo farmacêutico, estabelecendo padrões e diretrizes que orientam a prática e a regulamentação da profissão no país.

As datas comemorativas como o Dia Nacional da Farmácia (5 de agosto), Dia Nacional do Farmacêutico (20 de janeiro) e o Dia Internacional do Farmacêutico (25 de setembro), sendo esta instituída pela Federação Internacional de Farmacêuticos (FIP), reconhecendo a importância desses profissionais na saúde pública e privada nas organizações de saúde. O século XX testemunhou avanços impressionantes na farmácia. Novas drogas foram desenvolvidas, regulamentações tornaram-se mais rígidas e a pesquisa científica ganhou foco para aprimorar tratamentos. Essa evolução técnica, social e científica moldou a prática farmacêutica contemporânea, um campo em constante transformação e inovação para o bem-estar da sociedade.

Olhando para o futuro, as oportunidades para os farmacêuticos são vastas e empolgantes. Com avanços tecnológicos, genômica e medicina personalizada, abre-se um horizonte de descobertas e inovações. A farmácia está em constante transformação, e os farmacêuticos estão na vanguarda dessa evolução, prontos para abraçar novos desafios e moldar um futuro de saúde ainda mais promissor. Seu papel como cuidadores da saúde pública continuará a crescer, sempre dedicados a melhorar a qualidade de vida das pessoas em todas as comunidades. Assim, a história da farmácia é uma jornada inspiradora de resiliência, aprendizado e compromisso, com um futuro repleto de possibilidades para os farmacêuticos continuarem a fazer a diferença na vida das pessoas.

Transformação da Farmácia Hospitalar Digital e Inovação

Liderança e Gestão da Mudança

Além dos aspectos técnicos da farmácia hospitalar, os farmacêuticos frequentemente desempenham papéis de liderança e gestão em suas funções. Portanto, é importante incluir módulos de desenvolvimento de habilidades de gestão da mudança e liderança. Isso pode abranger tópicos como:

  • Liderança 4.0 e a Revolução Digital
  • Design Thinking e Inovação
  • Liderança Ética e Socialmente Responsável
  • Mentoria Digital e Colaboração Intergeracional
  • Gestão de Mudanças e Resiliência


1-Liderança 4.0 e a Revolução Digital

A exploração das tendências tecnológicas emergentes (IoT, IA, ADC, blockchain) e seu impacto na farmácia hospitalar.

Este artigo se concentra em capacitar os farmacêuticos hospitalares para liderar a transformação digital e a inovação em suas farmácias hospitalares. Com a indústria farmacêutica em constante evolução, os líderes precisam adotar uma abordagem ágil e voltada para o futuro. Projetado para ajudar os profissionais de farmácia a se tornarem líderes visionários, capazes de moldar o futuro da assistência farmacêutica hospitalar, com o intuito de aliar as novas tecnologias com as funções atuais, como segurança do paciente, redução de desperdícios, logística hospitalar, farmácia clínica, entre outras.

Você sabe quando os smartphones evoluíram ao longo dos anos e se tornaram uma parte essencial da nossa vida? Da mesma forma, a revolução digital está mudando a forma como as farmácias hospitalares funcionam. Novas tecnologias, como sensores, ADC, inteligência artificial e blockchain, estão entrando na farmácia. E como líder, é importante entender essas mudanças e como elas podem melhorar a assistência farmacêutica no hospital.

O Papel da Liderança Farmacêutica na Condução da Inovação Digital

Você já ouviu falar de como os capitães de um navio navegam pelos mares tempestuosos? Da mesma forma, os líderes farmacêuticos desempenham um papel crucial ao guiar suas equipes através das ondas da inovação digital na área da saúde. Vamos explorar como eles fazem isso.

Compreendendo a Revolução Digital

A revolução digital é como um furacão que varre o campo da saúde, trazendo novas tecnologias e mudanças. Como líder farmacêutico, é seu papel compreender essas mudanças. Isso significa estar atualizado com tecnologias como inteligência artificial, internet das coisas e sistemas de blockchain, que podem transformar a maneira como as farmácias hospitalares funcionam.

Definindo a Visão e Estratégia

Imagine que você é o capitão de um navio e precisa traçar um curso para um destino desconhecido. Os líderes farmacêuticos são como capitães, definindo a visão e a estratégia para adotar essas novas tecnologias. Eles determinam como a inovação digital pode melhorar a eficiência, a segurança dos pacientes e a qualidade dos serviços na farmácia hospitalar, visando um melhor atendimento hospitalar para os pacientes.

Capacitando a Equipe

Os líderes farmacêuticos não navegam sozinhos. Eles capacitam suas equipes para abraçar a inovação digital. Isso envolve fornecer treinamento, apoiar a aprendizagem e encorajar a criatividade. Imagine uma tripulação de um navio que precisa entender como operar novas tecnologias de navegação. Os líderes farmacêuticos desempenham esse papel, garantindo que todos a bordo estejam preparados para a jornada digital.

Adotando a Agilidade e Flexibilidade

Às vezes, o clima no mar muda rapidamente, e o capitão precisa se adaptar. Da mesma forma, a inovação digital é dinâmica, e os líderes farmacêuticos precisam ser ágeis e flexíveis. Eles devem estar dispostos a ajustar a estratégia à medida que novas tecnologias e desafios surgem. Isso ajuda a manter a farmácia hospitalar no caminho certo, mesmo diante de mudanças inesperadas.

Medindo o Progresso e Aprendendo com os Erros

Como capitão, você usa bússolas e estrelas para medir o progresso do seu navio. Da mesma forma, os líderes farmacêuticos usam indicadores e métricas para avaliar o impacto da inovação digital. Eles também aprendem com os erros, como um bom capitão que usa experiências anteriores para tomar decisões melhores no futuro, ou seja, trabalhar com os erros para que os mesmos não aconteçam novamente.

Os líderes farmacêuticos desempenham um papel vital na condução da inovação digital nas farmácias hospitalares. Eles são os capitães que guiam suas equipes com visão, estratégia e adaptabilidade, garantindo que suas instituições de saúde naveguem com sucesso nas águas da transformação digital.

2-Design Thinking e Inovação

Aplicação de princípios de design thinking para resolver desafios na farmácia hospitalar.

Imagine que você tem um problema na farmácia que precisa ser resolvido, como melhorar a eficiência na distribuição de medicamentos. O design thinking é uma maneira de abordar esse problema. Ele envolve olhar para o problema de diferentes ângulos, pensar criativamente e trabalhar em equipe para encontrar soluções inovadoras. É como ser um detetive que procura pistas para resolver um quebra-cabeça, a metodologia Lean Healthcare ajuda na resolução de diversas situações e problemas de maneira simples e eficiente.

Design Thinking and Innovation
Fonte: Wikimedia

3. Liderança Ética e Socialmente Responsável

Ser um líder ético significa fazer escolhas que são corretas e justas, mesmo quando ninguém está olhando. Imagine que você descobre que um medicamento está com a validade vencida na farmácia. Como líder, é sua responsabilidade tomar a decisão certa, que é retirar o medicamento para evitar riscos aos pacientes. Além disso, ser socialmente responsável envolve pensar sobre como a farmácia pode contribuir para a comunidade e o bem-estar das pessoas.

Ética na liderança significa a tomada de decisões responsáveis e corretas.

4. Mentoria Digital e Colaboração Intergeracional

Como estabelecer mentoria digital e fomentar a colaboração entre gerações?

Aproveitando as habilidades e conhecimentos de todas as gerações de farmacêuticos.

A mentoria é como ter um amigo mais experiente que pode lhe dar conselhos e compartilhar conhecimentos. No mundo digital, isso pode acontecer por meio de videochamadas e conversas online. Imagine um farmacêutico mais experiente dando dicas a um colega mais jovem sobre como lidar com situações difíceis na farmácia. Isso ajuda todos a crescer e aprender juntos, independentemente da idade, devemos deixar de lado as vaidades, pois todos podem colaborar uns com os outros, com um único objetivo a eficiência nos processos e a segurança e bem-estar dos pacientes.

5. Gestão de Mudanças e Resiliência

Mudanças são como ondas no oceano: elas vêm e vão. Em um ambiente hospitalar, é importante saber como lidar com as mudanças. Ser resiliente significa ser como uma mola que pode se dobrar, mas não quebrar. Você pode aprender a se adaptar às mudanças e ajudar sua equipe a enfrentar desafios, mantendo um ambiente de trabalho positivo.

Estratégias para Liderar e Gerenciar Mudanças em Farmácias Hospitalares

Liderar e gerenciar mudanças em farmácias hospitalares é como conduzir um grupo através de uma floresta desconhecida. É desafiador, mas com as estratégias certas, é possível navegar com sucesso por esse território em constante evolução. Aqui estão algumas estratégias-chave:

5.1. Comunicação Clara e Contínua

A comunicação é a bússola que mantém a equipe na direção certa. Como líder, é essencial comunicar de forma clara o motivo das mudanças, os objetivos a serem alcançados e o que é esperado de cada membro da equipe. Além disso, a comunicação deve ser contínua, fornecendo atualizações regulares e oportunidades para os membros da equipe fazerem perguntas e compartilharem preocupações.

A comunicação clara e contínua mantém a equipe na direção correta

5.2. Envolvimento da Equipe

Imagine que todos na equipe são como guias experientes da floresta. Eles têm conhecimentos valiosos a contribuir. Incentive a participação ativa da equipe no processo de mudança. Isso pode incluir a formação de grupos de trabalho, onde os membros podem oferecer sugestões e soluções. Quando as pessoas se sentem envolvidas, estão mais dispostas a aceitar e abraçar a mudança, elas se sentem valorizadas, por isso se tornam mais comprometidas e engajadas.

5.3. Definição de Metas Claras

Definir metas é como estabelecer pontos de referência em um mapa. As metas devem ser específicas, mensuráveis, alcançáveis, relevantes e com prazo determinado (conhecidas como metas SMART). Ao estabelecer metas claras, todos na equipe entendem o que estão tentando alcançar e têm um senso de propósito, pois todos nós devemos ter um propósito claro que nos dê uma direção.

5.4. Gerenciamento de Resistência

Assim como em uma trilha difícil, pode haver obstáculos no caminho. Alguns membros da equipe podem resistir às mudanças devido ao medo do desconhecido ou à preocupação com o impacto em seus papéis. Como líder, é importante reconhecer essa resistência e lidar com ela de maneira empática. Isso pode envolver fornecer suporte, esclarecer mal-entendidos e mostrar os benefícios da mudança, não faça com seus colaboradores o que você como líder, não gostaria que seu superior fizesse com você.

5.5. Monitoramento e Avaliação Constantes

A mudança é como uma jornada que requer checkpoints regulares. Estabeleça sistemas de monitoramento para avaliar o progresso em direção às metas estabelecidas. Isso permite ajustes à medida que a mudança é implementada. Além disso, celebre marcos e sucessos ao longo do caminho, reconheça o esforço e o compromisso da equipe, comemore junto com eles.

5.6. Treinamento e Capacitação

Às vezes, a mudança envolve aprender novas habilidades e adquirir conhecimento. Certifique-se de que a equipe tenha acesso ao treinamento e à capacitação necessários para se adaptar às mudanças com sucesso. Isso pode incluir programas de desenvolvimento profissional e workshops práticos, desenvolva um programa de treinamento constante com sua equipe.

5.7. Foco na Cultura Organizacional

A cultura organizacional é como a paisagem da floresta, moldando a experiência de todos. Líderes devem promover uma cultura que valorize a aprendizagem contínua, a adaptabilidade e a inovação. A cultura organizacional positiva facilita a aceitação de mudanças.

Liderar e gerenciar mudanças em farmácias hospitalares requer uma abordagem estratégica que envolve comunicação eficaz, envolvimento da equipe, definição de metas, gerenciamento da resistência e monitoramento constante. Com as estratégias certas, as farmácias hospitalares podem navegar com sucesso pelas mudanças e continuar a fornecer assistência de alta qualidade aos pacientes.

Quadro de valores em uma Cultura Organizacional

A liderança inovadora se destaca por sua abordagem prática, foco na liderança em um ambiente farmacêutico em rápida evolução e uso de tecnologias de simulação e colaboração online. Ele prepara os farmacêuticos hospitalares para liderar a transformação em suas instituições e enfrentar os desafios da assistência farmacêutica hospitalar do futuro, pois a evolução e as mudanças são constantes, por isso devemos nos preparar.

Desvendando as causas da Reinternação Hospitalar e Transformando a Saúde do Paciente

As reinternações hospitalares ou readmissões hospitalares representam um problema constante nos hospitais, pois se não identificadas, medidas e controladas suas causas podem aumentar os riscos para os pacientes e prejuízos financeiros para as instituições.

Reinternação hospitalar é o termo utilizado pela Agência Nacional de Saúde (ANS) para referir-se ao cálculo do retorno do paciente em até 30 dias após o recebimento da alta.

Estudos na literatura calculam a reinternação em 28 a 30 dias identificando taxas que variam de 5 a 25%, usando a seguinte fórmula: (nº de reinternações no período / nº de total de saídas no período) × 100.

Estudos demonstram que as taxas variam de 18 a 25%, para doenças cardiovasculares e respiratórias, principalmente nos pacientes acima de 60 anos de idade, onde estão presentes as comorbidades, representando um custo adicional ao sistema de saúde.

A taxa de reinternação após a alta hospitalar caiu de 21,9% em 2019 para 17,1 % em 2020 e 16% em 2021, segundo dados da Fundação Getúlio Vargas.

Os gastos com reinternação são tão expressivos, que o pacote de medidas conhecido como Obamacare, nos EUA desde 2012, determina que as reinternações sejam oneradas ao hospital, que “deve tratar bem o paciente desde a primeira vez”.

A literatura demonstra vários fatores responsáveis pelas reinternações hospitalares.

Reinternação hospitalar por mães adolescentes

Refere-se ao fenômeno de mães adolescentes que retornam ao hospital após o parto ou cuidados pós-parto.

Pode ocorrer devido a complicações durante o parto, falta de apoio familiar, falta de educação sobre cuidados com o bebê e fatores socioeconômicos.

O objetivo é reduzir a reinternação por meio de programas de educação, apoio social e acesso a serviços de planejamento familiar.

Reinternação hospitalar por determinantes sociais

Envolve pacientes que retornam ao hospital devido a problemas de saúde relacionados a determinantes sociais, como pobreza, falta de moradia, alcoolismo, acesso limitado a alimentos saudáveis, dificuldade no acesso aos medicamentos e educação precária.

Os determinantes sociais têm um impacto significativo na saúde, e a reinternação frequente pode ser um reflexo desses problemas subjacentes.

Abordagens interdisciplinares são necessárias para lidar com essa questão, incluindo a cooperação entre serviços de saúde e assistência social.

Reinternação hospitalar precoce

Refere-se a pacientes que retornam ao hospital em um curto período após a alta médica inicial.

Pode ocorrer devido à alta hospitalar prematura, falta de continuidade dos cuidados, falta de aderência ao tratamento ou complicações não identificadas anteriormente. Pode ocorrer também em situações em que o atendimento intra-hospitalar não foi de qualidade adequada.

É importante melhorar a coordenação dos cuidados, orientações aos pacientes e o acompanhamento após a alta para prevenir reinternações precoces.

Reinternação hospitalar por doenças crônicas

Envolve pacientes com doenças crônicas, como insuficiência cardíaca, doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC) e diabetes, que retornam ao hospital devido a complicações ou exacerbações dessas condições, normalmente acontece quando os pacientes não seguem as recomendações necessárias ou não aderem ao tratamento farmacológico e não farmacológico.

A gestão adequada das doenças crônicas envolve educação do paciente, aderência ao tratamento, monitoramento regular e intervenções preventivas.

Programas de cuidados coordenados e transições eficazes de cuidados podem reduzir as reinternações por doenças crônicas.

Em todos esses cenários, a prevenção da reinternação hospitalar envolve uma abordagem holística que leva em consideração fatores médicos, sociais e de estilo de vida. A coordenação dos cuidados e a promoção da saúde são fundamentais para minimizar as reinternações e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Diante deste cenário a importância das certificações de qualidade nas instituições hospitalares é fundamental para contribuição da diminuição das taxas de reinternação hospitalar, e também para um bem maior, para melhoria da qualidade, segurança, eficácia dos serviços de saúde e principalmente para os pacientes, onde, nestes processos de certificação, os profissionais de saúde são orientados a envolvê-los em seus respectivos cuidados, ou seja, realizam um planejamento de alta estruturado e adequado para cada tipo de paciente, de acordo com suas condições sociais e ambientais, onde  são informados quanto ao conhecimento de  sua patologia, tratamentos, cuidados, recomendações, entre outras informações, tanto no período intra-hospitalar, quanto às informações relativas ao autocuidado em seu domicílio. Claro que temos situações, como citadas anteriormente, que podem agravar o quadro dos pacientes, como fatores sociais e ambientais, daí a importância de o poder público investir nestas situações, com acompanhamento e visitas de profissionais de saúde a estes pacientes mais vulneráveis, oferecendo um cuidado centrado no paciente, verificação do acesso e aderência dos medicamentos, assim como o seguimento das recomendações.

Alguns estudos internacionais, demonstram alguns dados referentes a reinternação hospitalar:

  • Hollaway, Thomas e Shapiro (1998). Aproximadamente um quarto dos gastos com internação no MEDICARE são devido a reinternações que acontecem dentro de 60 dias da alta hospitalar. Altas taxas de reinternação podem ser por má qualidade de atendimento. As principais doenças neste estudo foram Insuficiência Cardíaca (IC), Diabetes Melitus e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC).
  • Ashton et al, declarou em um estudo que a reinternação dentro de 31 dias após a alta está ligada ao processo de tratamento intra-hospitalar, que aumenta o risco de reinternação em 55% se este tratamento foi relativamente de baixa qualidade.
  • Kossovsky et al (2000), para pacientes com insuficiência cardíaca, com reinternação após 31 dias após a alta, demonstrou uma taxa de 7,1%. Neste caso o fator determinante foi um preparo subótimo da alta hospitalar e não teve relação com a qualidade no atendimento intra-hospitalar e que as características clínicas e demográficas dos pacientes foram fatores determinantes para este fato.
  • Em um grande estudo realizado por Westert et al (2002), foram apresentados dados de três países europeus (Finlândia, Escócia e Holanda) e três estados americanos (Nova York, Washington e Califórnia), e tinha como objetivo analisar se as taxas de reinternação diversificam entre causas de internação e populações e se a duração da internação está inversamente relacionada com as taxas de reinternação. As doenças selecionadas foram: Insuficiência Cardíaca, Diabetes, Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica, (DPOC), Asma, Ataque Cardíaco e alguns procedimentos cirúrgicos. Os resultados deste estudo demonstraram que a Insuficiência Cardíaca e DPOC foram responsáveis pela maior taxa de reinternação na Europa 10,9% do que nos EUA 8,1%.
  • Halfon et al (2002), reportou em um estudo, que a taxa de reinternação nos hospitais suíços é em torno de 5%.
  • Dados de Heggestad (2002), em hospitais na Noruega para pacientes com idade acima de 65 anos de idade ou mais, a taxa foi de 8,57%.
  • Lagoe et al (2001), obteve uma taxa de 9% em um hospital de Nova York.

Um estudo brasileiro realizado por Rocha, Simões e Guedes (1997), teve foco na comparação de pacientes do SUS, medicina de grupo e pacientes particulares, em relação às taxas de reinternação. Os resultados deste estudo demonstraram que os pacientes com mais de uma internação no ano, foi maior para a categoria medicina de grupo, 16,4%, pacientes do SUS com taxa de 16,3% e nos pacientes da categoria particular a taxa foi de 11,1%. Neste estudo foram contabilizadas todas as repetições de reinternações ao longo do ano.

Em um trabalho publicado na Revista Brasileira de Enfermagem, fazendo uma relação entre o autocuidado e reinternação de pacientes com insuficiência cardíaca, demonstrou-se que quanto menor for o conhecimento do paciente em relação à sua doença de base, maior o número de internações por IC descompensada, e que esta doença é responsável por 21,6% do total das reinternações hospitalares, sendo neste estudo a maioria do sexo masculino e com idade acima de 61 anos. Isso demonstra a importância das orientações, educação, conhecimento, envolvimento do paciente em sua doença de base e em seu tratamento.

Seguem algumas recomendações para mitigação e diminuição das reinternações hospitalares:

  1. Integração de Dados de Saúde: A integração de sistemas de registros médicos eletrônicos e o compartilhamento de dados entre hospitais e clínicas podem melhorar a continuidade do cuidado, reduzindo erros e reinternações desnecessárias.
  2. Telemedicina e Monitoramento Remoto: A telemedicina e o monitoramento remoto estão sendo utilizados para acompanhar pacientes após a alta, identificar precocemente complicações e ajustar tratamentos, reduzindo assim a necessidade de reinternações, principalmente relacionadas à adesão dos pacientes aos medicamentos e o seguimento das recomendações médicas.
  3. Sistemas de Alerta: Os sistemas de alerta automatizados podem ajudar a identificar pacientes em risco de reinternação, permitindo a intervenção precoce e o ajuste de tratamentos.
  4. Programas de Gerenciamento de Transições de Cuidado: Concentram-se especificamente em garantir uma transição suave de cuidados do hospital para o ambiente domiciliar, com visitas de acompanhamento e coordenação de cuidados.
  5. Uso de Aplicativos e Tecnologia Móvel: Aplicativos e dispositivos móveis (smartphones, smartwatches) estão sendo usados para educar os pacientes, lembrá-los de tomar medicamentos e monitorar sua saúde após a alta hospitalar.
  6. Apoio Psicossocial: O suporte psicológico e social pode desempenhar um papel importante na prevenção de reinternações, especialmente em pacientes que enfrentam estresse emocional, ansiedade ou isolamento social.
  7. Programas de Medicina Preventiva: Concentram-se na prevenção de doenças. Vacinação, rastreamento e triagem regular, podem reduzir a necessidade de reinternações relacionadas a complicações evitáveis.
  8. Medicina Personalizada: Abordagens de medicina personalizada, que levam em consideração as características genéticas e fisiológicas individuais dos pacientes, podem resultar em tratamentos mais eficazes e menor risco de reinternação.
  9. Programas de Reabilitação: Programas de reabilitação física e ocupacional podem ajudar pacientes a se recuperarem completamente após procedimentos cirúrgicos ou eventos médicos, reduzindo assim a probabilidade de reinternação, principalmente em pacientes com doenças cardiovasculares.
  10. Parcerias com Farmácias e Profissionais de Saúde Comunitários: Parcerias com farmácias locais e profissionais de saúde comunitários podem garantir que os pacientes tenham acesso a medicamentos e cuidados de acompanhamento adequados, envolvendo o poder público e facilitando o acesso aos medicamentos aos pacientes com mais necessidades.
  11. Treinamento de Profissionais de Saúde: A importância do treinamento contínuo de profissionais de saúde para garantir que eles estejam atualizados com as melhores práticas e possam prevenir erros médicos que levam a reinternações, e realizar um planejamento de alta eficaz.
  12. Envolvimento dos familiares do paciente durante a alta: O envolvimento tanto do paciente quanto dos familiares é importante nos cuidados pós-alta, pois o seguimento das recomendações e a adesão ao tratamento reduzirá a taxa de reinternações.

Em suma, a reinternação hospitalar é um desafio significativo que sobrecarrega o sistema de saúde e impacta negativamente a qualidade de vida dos pacientes. Para mitigar esse problema, é crucial adotar abordagens preventivas, como cuidados continuados, monitoramento pós-alta e educação do paciente e familiares, utilização de ferramentas da qualidade, aplicar novas metodologias, como Lean Healthcare, além de melhorar a coordenação entre os profissionais de saúde e promover a conscientização sobre a importância do autocuidado. Reinternar o paciente é Muda (desperdício na terminologia do Lean) e deve ser eliminada, por isso ele deve ser bem tratado da primeira vez, com um atendimento de maior qualidade.

Essas medidas, quando implementadas de forma eficaz, têm o potencial de reduzir as taxas de reinternação, melhorar os resultados clínicos e proporcionar um sistema de saúde mais eficiente e centrado no paciente.


Referências Bibliográficas

  • Teston EF, Silva JP, Garanhani ML, Marcon SS, Reinternação Hospitalar Precoce na Perspectiva de Doentes Crônicos, 2016, Universidade Federal do Ceará.
  • Merli, Ana Paula Delgado, 2007, Reinternações no Hospital De Bauru.
  • AC Linn, K Azzolin, Souza MN,2016, Associação entre Autocuidado e reinternação hospitalar de Pacientes com Insuficiência Cardíaca.
  • LM Hayakawa, Schmidt KT, Rosseto EG, Souza SNDH, Bengozi TM, 2010 Incidência de Reinternação de prematuros com muito baixo peso nascidos em um hospital universitário.

Requisitos mínimos para a unitarização de medicamentos sólidos

A unitarização de medicamentos sólidos, ou seja, comprimidos e cápsulas é uma das etapas mais críticas e essenciais dentro do processo da cadeia de suprimentos em uma instituição e uma das mais importantes para organização e a diminuição dos erros de medicação. O objetivo desta fase do processo é preservar as informações que constam na embalagem primária do medicamento, fundamentais para que possa ser administrado com segurança. Algumas das informações presentes na embalagem são: nome, validade, dosagem, código de barras/Datamatrix, lote, fabricante, além de alertas relacionados aos medicamentos, como por exemplo, risco de quedas, não administrar em grávidas, Medicamento de Alta Vigilância (MAV) e outros, podendo-se personalizar de acordo com as características da instituição.

A título de complemento, as mesmas recomendações valem para a identificação de ampolas.
A título de complemento, as mesmas recomendações valem para a identificação de ampolas.

Melhorias neste processo são essenciais para garantia de qualidade e para a segurança do paciente e proporcionam algumas vantagens como: entrada imediata do medicamento na conta dos pacientes e baixa automática do estoque, rastreabilidade e diferenciação dos medicamentos que possam causar danos aos pacientes no momento da administração, como por exemplo, controlados, alta vigilância, quimioterápicos, citostáticos, medicamentos com nomes e sons parecidos (LASA), entre outras classes; além de fornecer para a enfermagem, no momento da administração, uma leitura clara e efetiva de todas informações necessárias do medicamento na embalagem unitarizada, para garantia da segurança no processo à beira leito, proporcionando fácil usabilidade pela equipe assistencial e redução dos níveis de estoques nos hospitais, em comparação aos que não realizam a unitarização, número que atualmente aproxima-se de 60%.

Para garantir um processo seguro e eficiente devemos atender os requisitos mínimos:

  • Realizar a higienização das mãos e dos equipamentos a serem utilizados, antes de iniciar o processo.
  • Possuir uma sala exclusiva e dedicada a essa atividade, com instalações adequadas ao cumprimento da legislação, com espaço condizente, de fácil limpeza, com iluminação suficiente, pia para higienização das mãos, temperatura e umidade controladas, móveis ergonômicos e, se possível, que seja próxima da área de recebimento, para evitar movimentações desnecessárias.
  • No momento da unitarização do medicamento, unitarizar apenas um produto por vez, a fim de evitar riscos de misturar os medicamentos, ocasionando sérios danos aos pacientes. Iniciar conferindo o lote e as informações a serem impressas na embalagem unitarizada, comparando com as informações da caixa primária do medicamento. Se possível neste momento realizar a leitura do código de barras do medicamento a fim de inserir as informações na máquina e realizar a conferência. Após o término do processo na máquina de unitarização, realizar uma inspeção no equipamento para verificar se não ficou nenhum medicamento; realizar a inspeção visual e contagem dos medicamentos unitarizados; lacrar este medicamento em caixas plásticas com o nome e quantidade do medicamento unitarizado, devidamente identificado, para posterior envio à farmácia central.
  • Separar os medicamentos pelos respectivos lotes, ou seja, se neste momento o medicamento tiver mais de um lote, trabalhar com um lote por vez, comparando-o com as respectivas embalagens primárias. Recomenda-se, ainda, organizar de forma serializada, os medicamentos de alto custo ou específicos.
  • O profissional farmacêutico, juntamente com a equipe de Qualidade e Segurança do Paciente, deverá criar indicadores de controle para o processo, com o intuito de garantir que após a unitarização de cada medicamento tenha-se a segurança necessária e que não haja falhas no processo. Pode-se criar uma planilha informatizada com todos os dados do medicamento unitarizado e, após o término de cada produto, realizar a conferência física, para evitar erros no processo.
  • Realizar treinamento para todos os envolvidos no processo de unitarização e evitar a rotatividade de pessoas na utilização do equipamento, para evitar possíveis danos e falta de medicamentos unitarizados destinados aos pacientes. O ideal é ter um colaborador de referência por plantão para operar o equipamento.

É importante lembrar o que não se deve fazer neste processo, ou seja, é estritamente proibido:

  • Trabalhar sem código de barras (CB): É essencial que todo o processo de unitarização de medicamentos seja realizado utilizando o sistema de Código de Barras (CB). Isso garantirá a rastreabilidade e segurança, minimizando os erros e garantindo que cada medicamento seja devidamente identificado e unitarizado antes de qualquer procedimento.
  • Desblistar os medicamentos: Os medicamentos em comprimidos, cápsulas e drágeas, devem ser sempre unitarizados em seus respectivos blísteres, para conservar suas propriedades fisioquímicas, garantidas pela indústria farmacêutica, além de seguir continuamente os padrões de segurança estabelecidos no processo e evitar qualquer risco à saúde dos pacientes.
  • Misturar lotes na sala de unitarização: Como recomendado anteriormente, os lotes devem ser devidamente separados e deve-se trabalhar sempre com um lote por vez, a fim de que não haja confusão ou mistura de diferentes medicamentos. Essa prática promove a rastreabilidade e evita potenciais erros na dispensação de medicamentos aos pacientes.
  • Trabalhar com vários operadores na sala: O ideal é que trabalhe apenas um operador por vez, e não trabalhar com vários colaboradores na mesma sala. Cada operador deve ser devidamente autorizado e capacitado para desempenhar suas funções de acordo com os procedimentos estabelecidos. A unitarização de medicamentos deve ser realizada apenas por operadores designados e devidamente treinados, evitando qualquer erro no processo.
  • Fracionar lotes de entrada: O fracionamento de lotes de medicamentos não deve ser realizado no processo de unitarização, deve ser seguindo rigorosamente os protocolos e diretrizes estabelecidos. É importante garantir que cada lote seja corretamente identificado e que não haja riscos de erros ou mistura indevida durante o processo.
  • Não ter uma sala separada para a unitarização: É imprescindível que a unitarização de medicamentos seja realizada em uma sala específica e devidamente designada para esse fim. Essa medida visa evitar qualquer possibilidade de erros no processo e garante um ambiente controlado e adequado para unitarização segura.

A dispensação de medicamentos é outra atividade essencial dentro da Farmácia Hospitalar, razão pela qual a mencionamos aqui, pois trata-se da etapa que sucede o processo de unitarização. Sendo assim é necessário ter uma atenção especial com relação à escolha do sistema de distribuição, adequado às características da instituição, com a utilização de tecnologias, armários inteligentes automatizados, leitura de código de barras e separação de Medicamentos de Alta Vigilância e psicotrópicos, devidamente identificados e separados dos demais itens e entregues pessoalmente nos postos de enfermagem.

O trabalho do profissional farmacêutico nestes processos mencionados deve ser guiado pelos seguintes objetivos: possuir um sistema de unitarização organizado e seguro; um sistema de distribuição racionalizado para garantir o cumprimento da prescrição médica; administrar corretamente os medicamentos aos pacientes, mitigando os erros; reduzir o tempo da equipe de enfermagem com atividades que deveriam ser da equipe técnico-administrativa; e potencializar o seu papel na equipe multidisciplinar, proporcionando à instituição uma gestão ativa e eficiente economicamente, com a redução de custos e desperdícios, e uma terapia medicamentosa segura, eficaz e  racional aos pacientes.


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Transformação digital: Automação em hospitais e a Segurança do Paciente

A inspiração para este artigo, surgiu com o sentimento de compartilhar questões importantes antes não mencionadas tão abertamente. Foi através da minha participação, como ouvinte em novembro/2022, no webinar organizado pela Healthcare Alliance e com apoio do SindHosp e IQG (Instituto Qualisa de Gestão em saúde) onde foi possível acompanhar um debate riquíssimo entre profissionais da área da Saúde focados em Segurança do Paciente.

Questões fundamentais foram abordadas, como o alerta que, atualmente, em Instituições de Saúde, os modelos de processos e protocolos impostos e implantados sobre Qualidade e Segurança do Paciente normalmente não se encaixam na realidade dessas instituições e geram burocracia sem resultados satisfatórios.

Ainda hoje, o lema nas instituições de saúde é “Comando e Controle”.

Os processos e protocolos são desenhados nas esferas superiores e impostas aos profissionais que as executarão. Muitos, porém, “não compram a ideia” porque estão fora da realidade em suas rotinas e não os aplicam. Os profissionais não participam destas questões e são “ordenados” a cumprir e trabalharem em equipe, situação incômoda para muitos deles.

Tais protocolos e processos são impostos de cima para baixo. Os líderes e diretores pensam sobre o assunto, redigem e aprovam, e apenas comunicam aos profissionais da saúde que irão aplicar tais protocolos. Tudo sem conhecimento prévio dos líderes sobre as rotinas da instituição, sem entender as diversidades de seus processos. Lembramos que cada uma delas está em fase de maturidade distinta, com modelos restritos apenas para identificar competências.

Essa situação nos leva a um ponto importante: seria essencial envolver todos os profissionais da saúde na ponta dos processos na elaboração dos protocolos de cuidados e Qualidade e Segurança do Paciente, levando em consideração todos os diferenciais para a aplicabilidade, a realidade das instituições e os processos existentes, e incentivar o trabalho em equipe. Porque esses profissionais não são preparados para esse tipo de trabalho em suas formações acadêmicas.

Então como fazer que essa engrenagem funcione? E como gerar a Qualidade para a Segurança do Paciente, antes mesmo de uma implantação de Transformação Digital?

Somente após a reavaliação dos processos existentes e reestruturação com a colaboração interprofissional, deve-se seguir com a implementação da tecnologia/transformação digital, lembrando que associada à CULTURA + PESSOAS + COMPETÊNCIA DIGITAL.

Importante salientar a necessidade dos executivos da saúde conhecer e entender sobre a tecnologia social + tecnologia física.

Opuspac

Todo esse sistema é a SAÚDE DIGITAL: tornar os processos mais ágeis e digitais com Segurança do Paciente.

As instituição de saúde desejam realizar a transformação digital, porém ainda falta aos executivos a competência digital.

A Saúde nasceu para ser interdisciplinar, então é necessário que existam profissionais preparados para trabalhar em equipe e, posteriormente, entrar no digital.

Com a utilização do CHA (termo para CONHECIMENTO + HABILIDADE + ATITUDE) em todas as esferas das instituições, essa jornada seria facilitada.

Nesse sentido é importante uma mudança de modelo mental — mindset — dos líderes e decisores da Saúde, e a gestão precisa acompanhar a realidade da gestão integrada.

Com toda essa mudança associada ao conhecimento aprofundado dos processos internos, colaboração interprofissional dos envolvidos nos protocolos e processos da Qualidade e Segurança do Paciente, a implementação da transformação digital e automação nos hospitais torna-se viável, sem maiores dores, e passa a fazer parte da realidade da Saúde.

Leia mais sobre Cultura Lean no Hospital.

 

Valéria Macabelli
Opuspac Corporate University
Opuspac Ltda

LQS – Lean, Qualidade e Segurança do Paciente

QA (Quality Assurance) – ou Garantia da Qualidade – é uma disciplina que também envolve a Segurança do Paciente, de acordo com o IOM – Institute of Medicine.

Desde 2002 o Lean integrou-se com o Lean Healthcare como uma disciplina hospitalar que busca aumentar a qualidade, reduzir desperdícios, otimizar o tempo de entrega e os espaços ocupados, melhorando processos orientados ao cliente, neste caso o paciente.

QA e Lean utilizam ferramentas similares e são orientados ao mesmo público, ou seja, os stakeholders hospitalares. Sendo assim, por que então fazer reuniões de conscientização, ou difusão, distintas, uma para Lean, outra para Segurança do Paciente e outra para Qualidade?

Isso seria considerado um desperdício de tempo, que é um dos nossos objetivos a eliminar.

Por que utilizar Lean? E por que utilizar desde já?

Estamos vivendo tempos de mudanças acentuadas e nossa necessidade de adaptação cresce dia a dia. Muito se fala de inovação. Lean é uma importante ferramenta disruptiva, inserida no como cultura organizacional nos últimos anos.

Existe o preconceito que Lean – ou Método Toyota – serve apenas para o setor produtivo, e isso não está correto. Na realidade temos os Lean Service há quase 30 anos, desde 1994, hoje utilizado em todas as áreas de uma empresa, e na área da Saúde temos o LEAN HEALTHCARE.

O problema nas empresas hospitalares é que, com custos crescentes e necessidade de aumentar investimentos devido à complexidade da medicina, freia-se com os recursos disponíveis. Mas é consenso que o desperdício hospitalar ronda em os 30%. Com margem de lucro entre 4% e 10%, as instituições que reduzirem o desperdício, mesmo em pequena proporção, vislumbrarão seus lucros aumentarem para o dobro. Ou mais.

São problemas comuns de qualquer hospital: fluxo não uniforme de pessoas e materiais, tempos de espera de pacientes e profissionais, excesso de estoque em alguns itens enquanto há ruptura de estoque em outros, procedimentos com erros ou defeitos, processos burocráticos e a alta necessidade de liberar espaços para novas atividades. Estes problemas são a essência das soluções do Lean Healthcare.

Criando um único departamento ou gerência, que denominamos LQS, os avanços obtidos em uma disciplina serão compartilhados com as outras. Dessa forma poderemos justificar economicamente a utilização de uma estrutura mais ampla.

No LQS, as ferramentas mais utilizadas em comum são: PDCA, 5 Whys. Pareto, Ishikawa, DMAIC, Root Cause Analysis, entre outras.

Não devemos, contudo, esperar resultados imediatos, pois primeiro deve-se implantar uma cultura em toda a organização e orientar as mentes para compreender e ver o que é MUDA (desperdício, na linguagem do Lean), ou seja, o que não agrega valor ao cliente final. Isso será um grande avanço, pois introduz um paradigma e uma nova visão para enxergar a realidade, pois muitas vezes, ano após ano, pensávamos haver uma única forma correta de se fazer este procedimento.

Para estabelecer uma cultura sustentável – sem idas e vindas – temos que trabalhar com o engajamento da alta governança, pois com o envolvimento de todos os stakeholders os resultados serão alcançados em torno de 3 a 5 anos, certos de que os melhores frutos chegarão no meio tempo com o envolvimento de todos.

Tenho escutado várias pessoas dizerem: “Sim, já aplicamos, mas agora não sei como está”. Esse é o pior resultado, pois, sem fracassar, o tema despencou e não se aplica mais.

Os cases de sucesso do Lean no mundo todo e especialmente nos EUA são muitos, ao ponto de ter sido incluído como tema de graduação em várias carreiras ligadas a healthcare.

As referências globais de melhoria da Qualidade, Segurança, Redução de Desperdício, Redução de Tempos e Esperas, Estoque e Espaço Ocupado fazem do Lean Healthcare uma disciplina obrigatória para recuperar a eficiência e a produtividade nos hospitais.

Ina, assistente virtual da Opuspac University

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